Exclusivo, diferenciado e outros isolamentos

Hoje, vindo de um compromisso de trabalho, durante a corriqueira tranqueira no trânsito porto-alegrense, noto um cartaz de um empreendimento imobiliário dizendo coisa do tipo: “more no lugar mais exclusivo de (nome da cidade)…”.

Bem, este termo “exclusivo” é muito bem vindo no ponto de vista do marketing, da moda e de outros tantos lugares que tem como o “status” sua base de venda. Resumindo, um produto “exclusivo”, na visão (ou na falta) de alguns, isso remete a algo que você possui, enquanto outros tantos não.

Ah, você diz isso pra todos... garanto!

Ah, você diz isso pra todos… garanto!

Certamente as mulheres irão lembrar daquele vestido único, com a assinatura do costureiro tal, e que, certamente, você não terá o risco de ir em uma festa e deparar-se com outra pessoa usando a mesma roupa… embora, o conceito “exclusivo” esteja diametralmente no lado oposto de “moda”… bem, explico adiante… comecemos, como de costume, com o nosso amigo “amansa”:

ex.clu.si.vo
adj. 1. Que exclui; que tem força ou direito para excluir. 2. Incompatível com outra coisa. 3. Especial, privativo, restrito. S. m. Direito de não ter concorrentes numa indústria ou numa empresa.

Podemos notar que o termo exclusivo nos remete a pensar que estar excluído, ser incompatível ou, se preferirem, no lado contrário de inclusivo, como algo “especial” e “privativo”.

Venha, Tesouro, não se misture com essa gentalha!!!

Venha, Tesouro, não se misture com essa gentalha!!!

Bem, estar excluído certamente pode ser considerado privativo, afinal, você não precisa conviver com quem não quer. E, possuir algo único, que poucas pessoas têm, pode passar a ideia de que você é alguém “diferenciado” (outro termo em voga para dar status).

di.fe.ren.ci.a.do
adj. Que é diferente do convencional: Tratamento diferenciado.

Diferente do convencional… hmmm, interessante…

con.ven.ci.o.nal
adj. m. e f. 1. Relativo a convenção. 2. Admitido geralmente. S. m. e f. Membro de uma convenção.

con.ven.ção
s. f. 1. Acordo, ajuste, combinação, convênio. 2. Pacto entre partidos políticos beligerantes. 3. O que está geralmente admitido e praticado, ou tacitamente convencionado nas relações sociais.

Está bem… acho que deu para captar a mensagem…

O que estamos recebendo como “mensagem” nesses anúncios é algo que diz subliminarmente que você será mais feliz se fugir das convenções sociais ou então, se excluindo de contextos e conceitos.

É, mas a "inclusão" comunista sempre é no dos outros...

É, mas a “inclusão” comunista sempre é no dos outros…

Como falei antes, inclusive (=inclusivo, que é o oposto de exclusivo), a pessoa que busca a exclusividade como conceito de moda, está paradoxalmente agindo. Afinal, o termo “moda” na estatística, nos remete a algo que acontece com frequência…

Em estatística descritiva, a moda é o valor que detém o maior número de observações, ou seja, o valor ou valores mais frequentes, ou ainda “o valor que ocorre com maior freqüência num conjunto de dados, isto é, o valor mais comum

Agora que aprendemos que estar na moda é estar de acordo com um padrão que ocorre várias vezes, podemos notar que não dá para ser exclusivo e, tampouco, ser diferenciado…

Seguindo adiante, podemos também ponderar que essa necessidade de sermos diferentes, de quebrarmos as convenções e, simplesmente largarmos de mão os conceitos sociais, AO MEU VER, indicam que muitos de nós, internamente, estamos cansados de tais convenções. Ao mesmo tempo que queremos ser “exclusivos” e “diferenciados”, também temos problemas com quem atinge tal status. Temos diversos casos de pessoas que não digerem bem o sucesso alheio ou, baseando-se por outros, frustra-se em suas próprias tentativas.

A Fernandinho Beira-Mar o que é de Fernandinho Beira-Mar...

À Fernandinho Beira-Mar o que é de Fernandinho Beira-Mar…

Se analisarmos mais a fundo o conceito de exclusividade e de diferenciação, podemos ver que poderia ser, simplesmente, alguém diferente e fora de um contexto. Ou melhor, alguém dentro de um contexto PRÓPRIO. Este contexto, para ser diferente, não pode ser igual a nenhum existente, suponhamos, e, sendo assim, este alguém teria sérios problemas em “se inserir na sociedade e em suas regras e convenções”. Ou, como costumam dizer, não seria NORMAL. Também seria um “desvio do padrão”.

Sem mais, meritíssimo...

Sem mais, meritíssimo…

Notemos agora, que, não por acaso, que “desvio padrão” está inserido num contexto estatístico de “normalidade”. Enfim…

Sendo assim, podemos então notar que a vontade do pessoal em ser diferente, nada mais é do que fugir do “convencional”. Agora, fica a pergunta: quem é que nos obriga a ser “convencional”?

As leis, dirão. Não, elas nos enquadram para o “desvio”, ou seja, tentam prever regras para que não “desviemos” da normalidade, mas, ainda assim, não nos impedem de agir de forma diferente (ou diferenciada).

Para os que já sabem que somos todos únicos, não estou dizendo nada de novo. Alguns têm a consciência de que nascemos “fora do padrão” e que vamos “aprendendo” ao longo da vida como sermos “aceitos” pela sociedade e suas convenções. Bem, tais convenções, da mesma forma, variam de povo para povo, filosofia para filosofia, e, sobretudo, de credo para credo (credo em cruz!).

Pois para alguns, diferenciar-se dos outros não significa, necessariamente, evoluir a si mesmo...

Pois para alguns, diferenciar-se dos outros não significa, necessariamente, evoluir a si mesmo…

Enquanto no Brasil é normal andar de fio dental em uma praia, em outro local, as mulheres devem andar de burka. E, da mesma forma, enquanto por aqui, se alguém se passar com a euforia pela bunda alheia, tem a lei para enquadrar o abusado, enquanto em outro lugar, a mulher que descobrir o rosto, é punida severamente… e em qual dos lugares podemos dizer que é normal isso?

Há quem diga que não é normal andar de bunda (semi) de fora em outro lugar que não seja a praia, enquanto, há quem ache que uma mulher ter prazer em uma relação sexual é motivo para que lhe mutilem os genitais…

Normal? Diferente? Cultural?

Não sei como classificar essas coisas, então, compartilho minhas indagações aqui. E, talvez, pondere ainda mais se pensar que uma mulher, por aqui, ande de bunda semi-de-fora em uma praia com o intuito de diferenciar-se das demais, ou, por justamente notar que as demais também assim agem e, portanto, não querendo diferenciarem-se delas? Ficaria aqui, minha dúvida sobre diferenciação…

E eu vou ficar com certeza, maluco beleza...

E eu vou ficar com certeza, maluco beleza…

Já, no lugar onde as mulheres são castigadas, mutiladas, etc, etc, etc; pondero se o caso lá fosse que pudessem elas tornarem-se “exclusivas” do sistema… ou, pelo menos, poderem excluírem-se de tal…

Exclusividade, meus amigos, é em certos casos, a necessidade de ausentar-se. De fugir, talvez… e, como sabem bem os psicólogos, a fuga é apenas uma demonstração de que não toleramos nossas realidades…

Ponderemos…

Hein?! Dá pra repetir?!

Hein?! Dá pra repetir?!

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