Valorizar ou valorar

Já escrevi algumas vezes sobre a diferença entre juízos em geral. O de valor é um dos que, fatalmente, acabo recorrendo mais, pois, ao meu ver, cada um tem o seu valor e, baseado nele, faz suas escolhas.

Bem, mas o que isso tem a ver com o proposto no título?

Tem a ver que o “valorizar”, no entendimento de alguns, confunde-se com o “valorar”… vejamos, como sempre, no amansa para clarear as coisas (o de hoje é o Mini Aurélio Digital):

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va.lo.ri.zar
Verbo transitivo direto.
1.
Dar valor a, ou aumentar o valor de.
2.
Reconhecer as qualidades, os méritos de (pessoa, ação, coisa, etc.).

Verbo pronominal.

3.
Aumentar de valor.
4.
Dar valor a si mesmo. [C.: 1]

§ va.lo.ri.za.do adj.; va.lo.ri.za.dor (ô) adj. sm.
  • “Dar valor a, ou aumentar o valor de…” – isso, para mim, são duas coisas diametralmente diferentes… “reconhecer… méritos”… ok…

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va.lor (ô)
Substantivo masculino.
1.
V. valentia (1).
2.
Qualidade que faz estimável alguém ou algo; valia.
3.
Importância de determinada coisa; preço, valia.
4.
Legitimidade, validade.
5.
Significado rigoroso de um termo.

*QUALIDADE que faz estimável alguém ou algo”… “importância de determinada coisa; PREÇO, valia”. Ok. Era aí que eu queria chegar… a diferença que reside entre a qualidade que faz algo ou alguém ser estimado, e, o preço… e, daí, eu sempre digo que, enquanto alguns têm preço, outros têm valores…

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E, estimar algo, ou valorizar, é uma coisa que fazemos baseados em nossos valores (morais), comparando-os com nossas projeções ou juízos… então, o que é valorizado para mim, pode não ser para você… seu time ser melhor que o meu, pode lhe parecer algo importante, enquanto, para outros, isso é o menor dos problemas…

Também há os que formam seus “valores” baseados em coisas bem subjetivas… ou, em opiniões alheias… muitos, inclusive, gostam de citar fontes, teses, autores e (o novo rico da terminologia) intelectuais para embasar seus gostos…

Pois nem tudo é relativo nessa vida… há coisas que, simplesmente podemos nos basear sem precisar de ajuda… quem aqui imagina algo do tipo:

– O senhor gostou desse sorvete, senhor?

– Não, achei meio sem gosto… até aguado, eu diria… o sabor do morango é pouco percebido e, além disso, achei sem consistência…

– E o que o senhor diria se soubesse que esse sorvete foi feito pelo Claude Troisgros (ou outro da moda, pois conheço poucos cozinheiros famosos), usando morangos orgânicos de estufas da escandinávia, colhidos por virgens albinas da etiópia, fugitivas de perseguição religiosa, cultivados sem agrotóxicos e adubado com fezes de panda chinês, com leite de cabra manca que seria sacrificada, mas foi salva pelo Greenpeace em uma operação quase militar na Bóznia?

– Bem… veja bem, eu achei o gosto, na verdade, diferente… dá para notar o sofrimento da pobre cabra, e, por isso o azedume inicial… como é perene o sofrimento da cabra e da mãe Terra no sabor, não é mesmo?

Ok. Este é mais um diálogo idiota metido a engraçadinho, mas, que exprime um pouco do momento atual… as pessoas não baseiam-se mais em coisas simples. Aliás, quanto mais rebuscada for a coisa, melhor… não me espantaria uma resposta final, no diálogo acima (imaginando um Maitre e um cliente de restaurante), ser um “foda-se, tá uma merda mesmo assim…”. E, acho que, embora não fosse a mais “politicamente correta” (outro termo que me causa urticária), seria, provavelmente a mais honesta… se baseada no gosto e na impressão inicial do cliente.

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Também temos os casos de frases e citações… onde ouve-se uma frase e, muito além de pensar nela, encontrar o sentido e, independentemente de concordar, discordar ou perceber que foi perda de tempo ter ouvido tamanha bobagem, as pessoas, imediatamente buscam saber quem é o autor, o porquê disse isso e, sua intenção ao tê-lo dito…

Eu mesmo tenho essa inclinação, pois acredito que há interesses revestidos em frases belas, além de que meias verdades podem ser mentiras completas. Desconstruir conceitos e notar que, frases pontuais podem ser encaixadas em contextos, embora, as intenções iniciais não sejam tão nobres quanto as interpretações posteriores…

Bonito, não?!

Bonito, não?!

Assim, podemos montar enormes mentiras, apenas falando verdades… ou, coisas bonitas… conclamando o que há de melhor em matéria de sentimento… e, inclusive, como na frase do “pensador” acima, o amor, respeito e tals…

Vejamos que não venho aqui pregar a desconfiança de tudo e de todos, mas, antes de qualquer outra coisa, eu tenho uma intenção clara: a de tentar fazer com que todos busquemos nossas próprias respostas… sem ficar com o que não entregam “pronto”. Tudo carece do nosso crivo… e eu disse TUDO mesmo!

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Concordar ou não, baseado naquilo que você conhece, que gosta ou mesmo no que você valoriza, pode se caracterizar em uma ilusão, muitas vezes, pois valorizamos coisas diferentes em diferentes estágios da vida…

Houve época em que eu valorizava mulheres bonitas… em outras, mulheres inteligentes… em outras, mulheres tranquilas… já, hoje em dia, valorizo as bem humoradas… e, isso, só para ficar no meu gosto pelo universo feminino…

Assim, o que você valoriza hoje, pode não ser o que valoriza amanhã… sendo assim, também é prudente rever tudo aquilo que você “julgou”, baseado em seus gostos da época… se eles não mudaram também…

É claro, sem se esquecer do que é mais importante para a composição desse julgamento… afinal, sorvete de morango é ruim ou não, independente de quem o tenha feito… assim como aquela mulher pode te parecer mais ou menos bonita de acordo com o seu estado etílico… (quem aqui, né amigo?!)

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