Ladrões, assaltantes e burros… Caso real

Dos tantos “causos” que conto na vida, dentre meus 39 anos de existência, talvez os que se referem ao meu infortúnio com a violência urbana de Porto Alegre, sejam aqueles que mais causam risos, a despeito do que exigia a situação. De tantas vezes, mudei meu status de “azarado” para “sortudo”, afinal, somando-se tudo, foram 10 revólveres apontados para mim, sem levar nenhum tiro, então, acho que dá para considerar sorte… Ao todo, já tive 5 vezes o carro roubado, sendo que 2 vezes fui levado junto… e em uma delas (a segunda), quando conto, sempre ouço que isso deveria ter virado um curta-metragem no cinema… quem sabe um dia?

Era uma noite fria do ano de 1996. Eu tinha saído em uma sexta à noite, para um barzinho ou coisa mais curta, porque tinha que trabalhar no sábado pela manhã (coisa que mais odiava fazer na vida. Não o trabalhar, mas o acordar sábado de manhã). Confesso que não queria sair, mas, o pedido de uma amiga que tinha acabado de terminar um namoro com um grande amigo meu e que precisava “chorar as pitangas” para alguém (coisa que sempre fui bom: ouvinte), além de cheirar a cilada, poderia não ser apenas maldade da minha cabeça e fosse apenas um pedido de ajuda de alguém em angústia… bem, me enganei e, realmente, era uma cilada. A moça ficou carinhosa demais comigo e, coisa que eu não admito dentro dos meus padrões morais é ficar com ex-namorada (e muito menos namorada) de amigos. Sugeri que a hora era avançada e resolvi largar a moça em casa sem mais escalas. Não era ainda tarde da noite, então, resolvi ir diretamente para casa e dormir mais tempo para a jornada do dia seguinte. As ruas vazias sugeriam que eu poderia avançar semáforos fechados sem problemas com a lei (ainda não existiam os “pardais” e “caetanos” para nos multar), até que, perto de casa, em uma faixa de pedestre em uma sinaleira de corredor de ônibus, resolvo reduzir e parar o carro para que dois “cidadãos” atravessassem a rua… e aí foi o meu erro.

Ah, pois então...

Ah, pois então…

Os dois cidadãos que fingiam atravessar a rua, vieram diretamente para a janela, enquanto eu ainda ponderava sobre ter feito certo ou não em levar a moça em casa, se contaria o ocorrido ao amigo ou não… e o susto de ver aquele revólver apontado me fez quase soltar a bexiga. Sorte que eu não tinha bebido.

Minha mãe sempre diz que devemos andar na noite com os vidros fechados. Como se fossem à prova de bala ou coisa parecida, mas, ainda assim, o meu Uno Mille 94, pelado, não tinha travas elétricas e, portanto a porta do carona já estava aberta pela descida da moça e o meu esquecimento em fechar o pino, ainda por estar com a cabeça longe dali para lembar de pinos…

O cara abriu minha porta, me colocou para o banco de trás, mesmo com o pedido para que me liberasse, e, com o comparsa no banco do carona, me levaram para “passear” arrancando à toda velocidade.

Automaticamente me pediram todos os pertences, embora a carteira já estivesse sobre o painel do carro. Com ele se foi um casaco que o meu pai adorava e eu resolvi “afanar” para usar na noite, enquanto o “colega” do motorista, ao vasculhar minha carteira, notou apenas 2 folhas no talão de cheque, além de alguns trocados na carteira. Algo equivalente a menos de 10 reais, hoje em dia. E aí foi que começaram as pérolas.

Se ainda fosse uma assaltante dessas...

Se ainda fosse uma assaltante dessas…

  • MAS TU É UM CHINELÃO, GURI… SAIR COM ESSA MERRECA NA NOITE? NÃO VAI PEGAR NINGUÉM COM ISSO, CHINELO! – gritou o do banco do carona, que parecia menos nervoso do que o motorista que ainda em velocidade alta, fazia aquele motorzinho 1.0 gritar alto. Pensei com meus botões que ser chamado de chinelão por bandidos é o cúmulo da ironia, mas, preferi seguir quieto. Ao que o motorista resolve também se pronunciar.
  • TU É MUITO BURRO, SEU PUTO! ONDE É QUE JÁ SE VIU PARAR EM SINALEIRA NA MADRUGA? NÃO SABE QUE TÁ CHEIO DE BANDIDO NA RUA?! – Disse também gritando. Nessa hora eu já começava a olhar para os lados para ver se era algum tipo de “pegadinha” de algum programa que iria testar minha paciência em engolir sapos na noite sem surtar. E o cara seguiu.

  • MAS PODE FICAR TRANQUILO. SÓ QUEREMOS O CARRO PARA FUGIR… DEPOIS TU ACHA O CARRO… VAMOS DEVOLVER ONDE TE PEGAMOS… EU SOU LADRÃO MAS SOU HONESTO…

Bem, nessa hora meu estômago deu reviravoltas, meus olhos lacrimejaram e a vontade de pedir que a criatura desse logo um tiro na minha cara para eu não ter que ouvir isso quase foram mais fortes do que a razão… quase… me permiti a dizer apenas um: – TUDO BEM, FICA TRANQUILO… e o motorista seguiu o discurso:

  • NÃO É TODO BANDIDO QUE É SAFADO, EU SOU HONESTO… SE EU DIGO QUE VOU DEVOLVER, É PORQUE VOU DEVOLVER… PODE CONFIAR…

Já quase sem ar pelo meu estômago querer colocar tudo para fora em forma de risadas, gritos e uma série de palavrões, ainda tentando manter a sanidade ali, solto apenas um: – BELEZA, EU CONFIO EM TI… e o engraçadinho seguiu me interrompendo com:

  • NÃO TEM QUE CONFIAR EM MIM QUE EU SOU LADRÃO… MAS, SE EU DISSE, TÁ DITO!

Ao finalizar a frase, já em um local que se dirigia para Viamão, em uma estrada alternativa onde só havia mato, asfalto e a lua, pois sequer postes haviam ali, o motorista quase se perde em uma curva e derrapa o carro. Eu, que já preferia morrer ao ouvir tantas maravilhas, resolvi falar:

  • Posso dizer uma coisa? – Perguntei. Fui interrompido pelo motorista filósofo com um – CALA BOCA, GURI! PORRA!

O cara do banco do motorista, diz que eu poderia falar. O que deu a entender que era o “cérebro”, enquanto o motorista era o “Pinky”.

- E o que vamos fazer hoje, Cérebro? ; - O que fazemos todas as noites, roubar toca-fitas com auto-reverse...

– E o que vamos fazer hoje, Cérebro? ; – O que fazemos todas as noites, roubar toca-fitas com auto-reverse…

Com a maior falta de noção, mas, com coragem, resolvo dizer: – Olha só, não tem ninguém nos perseguindo, não tão nos procurando e eu sequer tenho um telefone à quilômetros perto daqui para ligar… então, quem sabe tu diminui a velocidade, porque nós já quase capotamos o carro e dirige normalmente? Inclusive desse jeito tu vai acabar chamando a atenção…

  • TU TÁ ME CHAMANDO DE BARBEIRO, GURI DE MERDA?! – me interrompeu o motorista dando socos para trás sem tirar os olhos da direção e acertando minha perna… – VOU TE MATAR! – seguiu dizendo…
  • O GURI TÁ CERTO, BAIXA A BOLA AÍ… – disse o do carona, deixando claro quem era o chefe…

  • Assim, vocês me deixam aqui, eu vou voltar a pé e, até chegar em casa vocês já chegaram onde queriam, provavelmente…

  • PARA O CARRO… VAMOS DEIXAR O GURI AQUI… – mandou o chefe…

  • O carro parou no meio da estrada que sequer tinha acostamento, a luminosidade era apenas a da lua… e enquanto o chefe mandava eu esvaziar tudo que eu tivesse nos bolsos, eu ficava na dúvida se tirava o meu G-SHOCK que estava escondido sob a manga do blusão… mas, quando ele diz que me revistaria na saída e me mataria se tivesse mais algo comigo, resolvi tirar e deixar no chão do carro, dando um chute para debaixo do banco, para, caso eles realmente devolvessem o carro, eu poderia recupera-lo depois…

    • DESCE BEM DEVAGAR E NÃO OLHA PARA TRÁS…

    Desci e caminhando lentamente, sinto que algo apontava para mim… dei aquela olhada de canto, e vejo a arma apontada e, naquela hora noto que se pegasse o tiro em algum lugar complicado de me locomover, só me achariam no meio daquele mato quando os urubus apontassem… mas, o cara guardou a arma, entrou no carro e arrancaram… dessa vez, em velocidade normal.

    As lições da noite seguiram… aprendi que não se pede carona a quem passar por ali. Pois os caras vão achar que tu está tentando assalta-los também, ao invés de pedir ajuda… outra lição: situações adversas despertam o MacGyver que existe na gente…

    É nóis!

    É nóis!

    O meu carro estava “caolho”, o farol da esquerda estava em luz baixa apenas, enquanto o da direita, por um encostão em um carro, certa feita, estava apontado para cima, dando impressão de estar em luz alta. Isso complicava a direção a noite, pois sempre levava luz alta de volta… mas, minha surpresa, após caminhar por um bom tempo naquela estrada no caminho de volta, percebo que o meu carro voltava também (pelo “olhar” dos faróis)… me atirei no mato e ali me escondi… não duvidava mais da capacidade da noite poder piorar, então, preferi seguir por conta própria… deixei o carro passar para sair dali e voltar à estrada.

    Caminho mais uns minutos, ou horas, sei lá, pois sem relógio, me baseava pela lua, que estava atrás de mim no início da caminhada e já estava sobre mim àquela altura.

    Passo pela entrada de um sítio, com muros altos de tijolos, cobertos com um tipo de cerca viva e um portão de grades altas, que não havia percebido na ida pela escuridão… uns 200 metros adiante, vi um carro atravessado na estrada. No instinto MacGyver, já beirando ao Chuck Norris, resolvo adentrar o mato para me aproximar dele de forma que não me vissem, caso houvesse alguém por ali. Não cheguei a me aproximar muito para ouvir o início de um tiroteio. Não sei quantos tiros foram dados, pois voltei correndo, no instinto, em direção à entrada do sítio, escuro, que aparentava não ter ninguém ali. Pulei a grade com um impulso, dando inveja à cadetes do exército em exercícios de treinamento, embora, a aterrizagem tenha sido com as costas, numa clara ideia de que a inveja dos cadetes duraria pouco…

    Esses aí certamente me invejam...

    Esses aí certamente me invejam…

    A volta do muro do sítio era arredondada, tendo no portão uma entrada recuada em relação aos muros. Fiz a volta e fiquei encostado na “barriga” da volta do muro, pois não me veriam caso tentassem expiar pelo portão (no caso de ser comigo o negócio do tiroteio, coisa que eu não sabia). Dou uma suspirada de alívio, já sem ouvir tiros… mas o alívio durou pouco. Latidos altos de cães ficavam mais altos. A casa era afastada da entrada, sob um aclive de grama (não dá para chamar de colina), e, de lá, vinha dois Rothweillers em minha direção correndo.

    Eu ainda sentado, imaginando naquele momento se preferia morrer com tiros ou com mordidas, resolvo levantar, catar um galho grosso perto de mim. E, imóvel tentava calcular se eu dava uma paulada em um e um chute no outro ou se seria inútil…

    Os cães se aproximaram até uma distância de uns 10 metros de mim, ainda latindo, mas, sem avançar, latiram por mais uns instantes até que, pararam. Depois de alguns segundos ou minutos de encaradas mútuas, os dois retornaram de onde vieram. Nessa hora, talvez, meu anjo da guarda tenha ganho menção honrosa e direito à férias remuneradas…

    Sentei novamente e esperei um tempo até que, porventura os protagonistas do tiroteio tivessem se afastado (ou se matado), para então, pular o muro de volta para a estrada. O carro não estava mais lá. Segui andando. Passo a entrada de uma vila, com uma estrada de chão batido… e, já em estado de neurose, me abaixava junto ao asfalto para ver se havia luminosidade de carros se aproximando novamente, pois eu ouvia vozes. Naquela encruzilhada, não havia tanto mato para eu me esconder, então, deitado rente ao chão, por achar que era mais difícil de me ver, resolvo escalar um outdoor por trás, daqueles feitos com troncos de madeira. Fiquei pendurado atrás do outdoor, ouvindo dois caras falando sobre ter “conseguido” apenas 3 rádios toca-fitas, mas com auto-reverse, alguns relógios e pouca grana. Durante os minutos ali pendurado e esperando as vozes se distanciarem, percebi que eu iria conseguir me safar do que viesse dali para frente, numa clara sensação de capacidade para me virar por conta. Daí outra lição: a dor ensina a gemer… ou seja, quando aperta o calo, a gente consegue dar um jeito, por mais doido que possa parecer.

    Desci do outdoor, enquanto as vozes adentraram a tal vila e cessaram, seguindo a rota para casa. Começo a ver luzes de postes, casas, uma loja de gás… e, metros mais para frente, uma delegacia de polícia… “ESTOU SALVO!”, pensei. Com a sensação de que mesmo havia me salvado, já no delírio da epopeia toda.

    Bato à porta, com as luzes apagadas até que uma se acende e um plantonista vem esfregando os olhos…

    Entrei, sentei, registrei a ocorrência e pedi que ligassem para meus pais para que me ajudassem. O policial disse que ligaria, mesmo eu pedindo para falar ao telefone, visto que, ouvindo minha voz, não se assustariam com o relato após saber que eu estava bem.

    Mas, o profissional ligou e, com voz de radialista, iniciou:

    • Aqui é da 12ª DP de Viamão… inspetor “Fulano” (não lembro mesmo o nome)… o senhor é familiar de Rogério Ketzer?…
    Deixa pra mim, que eu sou canhoto...

    Deixa pra mim, que eu sou canhoto…

    Pelo “senhor”, concluí ser meu pai ao telefone, mas, imaginei que ia dar um susto no velho falando daquele jeito… “DIZ LOGO QUE EU TÔ BEM!”, falei alto. Mas recebi uma palma da mão com um olhar de “eu sei o que estou fazendo”… e então seguiu…

    • Pois então, o seu filho foi vítima de um sequestro… mas está tudo bem…

    Imaginei que a primeira frase poderia ter infartado o velho, mas, pelo menos durou pouco… e, após algumas explicações, com minha insistência para que eu falasse ao fone, consegui ser atendido.

    • Pai, tem como vir me buscar? Não sei nem onde é que eu tô… – disse… mas, como a noite era de ironias, ouvi de volta um:
  • Não tem como pedir uma passagem aí pro cara? Aí tu pega um ônibus…

  • troll dad5301

    Certamente o meu pai não conseguiu terminar a frase, pois minha mãe deu alguma ordem que já estariam vindo… aí passei o telefone de volta para o policial que me olhava com cara de incrédulo… não sei se porque não teria passagem para me emprestar ou pela “espontaneidade” do meu pai…

    Chegaram lá tempos depois, voltei para casa, e, na segunda-feira tive a notícia de que o carro havia sido achado…

    E não é que os ladrões eram de palavra?!

    Fui com a cópia da chave reserva com a minha mãe, mas, fui informado da tal “perícia” da polícia… pedi para ver o carro, mas, me informaram que não poderia até o final do “trabalho”… enquanto a minha mãe me pergunta o porquê eu iria querer ver o carro sem esperar mais alguns minutos… contei a ela o episódio do G-SHOCK embaixo do banco, e, queria ver se estaria lá… e aí a última lição do episódio:

    um escrivão que estava no atendimento que nos orientava para o procedimento, ergue as sobrancelhas , me olha de canto de olho, levanta e vai diretamente para o local da perícia… minha mãe me olha com uma cara de “LÁ SE FOI TEU RELÓGIO, GÊNIO!”, e, ali eu aprendi que assaltantes e ladrões são coisas diferentes…

    Afff, vai ser burro assim lá em Brasília!

    Afff, vai ser burro assim lá em Brasília!

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