Afinidades e afins…

O mundo é composto de sociedades, poderíamos dizer – pelo menos sob a ótica da humanidade – de forma que também poderíamos dizer que, dentro das tais sociedades, convive-se com diversos tipos de pessoas. As que nutrimos alguma afinidade, seja ela ideológica, sentimental, ou qualquer outro motivo que te faça simpatizar; da mesma forma que algumas pessoas despertem náuseas só de lembrarmos.

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Pois bem, e esse não gostar, para alguns, pode ser classificado em preconceito (termo que detesto por ser mal empregado e confundido com segregação), ignorância, intolerância e mais uma série de conceitos que alguém possa evocar.

Pois bem, comecemos com o de sempre. O amansa.

 

a.fi.ni.da.de
Substantivo feminino.
1.
Semelhança.
2.
Conformidade, identidade.
3.
Coincidência de gostos ou de sentimentos.
4.
Relação estabelecida por casamento, e que vincula os parentes de cada um dos cônjuges ao outro cônjuge e seus parentes.

Ok. Se identificar e ter os mesmos gostos ou sentimentos… embora o exemplo da relação estabelecida por casamento entre parentes dos cônjuges dê um bom exemplo do que as vezes temos que aturar mesmo contra a vontade… não falo da minha relação específica, mas, exemplifica bem o caso de uma relação político-partidária por exemplo… onde um cara legal, meu amigo, faça parte, por associação do mesmo partido do Maluf, por exemplo…

Enfim, dentro dessas afinidades, geralmente acontece de defendermos posições e pessoas. Tal qual uma mãe que sabe que o filho é bandido, mas, mesmo assim não quer vê-lo se estrepando com a polícia, algumas pessoas passam a mão na cabeça de outros em função dessa simpatia…

Mas, seria interessante indagarmos se, por exemplo, afinizarmos com causas específicas, teríamos necessariamente defendê-las totalmente, mesmo quando vemos erros?

Tal qual a mãe do filho bandido, que omite ou que minimiza crimes, simpatizar com uma causa prejudicial te torna alguém ruim?

Não, alguns diriam. Obviamente, outros diriam… já, eu diria que, DEPENDE DA CONSCIÊNCIA DA PESSOA…

Explico…

Se a pessoa tem plena consciência de que a tal causa é realmente prejudicial ou tem pontos falhos e faz vistas grossas a eles, então ela tem má índole… enquanto, se ela for uma ignorante, uma crédula ou esteja sendo ludibriada, então não é má pessoa… apenas mal informada.

Bem, aí se alguém trouxer à luz das informações a essa pessoa, e, ainda assim, ela com o conhecimento real dos fatos, optar por seguir o tal caminho, tendo ela já concluído que não é bom ou que terá que omitir, contar meias verdades e mais uma série de más incursões sociais em nome de manter a sanidade da causa, apenas pela tal afinidade, bem, aí nesse ponto, ela acabou de corromper-se ao MEU VER…

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Notem que mais uma vez volto ao ponto da ignorância X saber. Sim, volto a ele por justamente achar que é o diferencial moral de todos. Talvez por isso, quando alguns espertalhões alegam “não saber de nada”, tentem beneficiar-se da dúvida alheia quanto suas morais. “Bem, se não sabia, então foi enganado, coitado…”.

Relativizando a coisa, como muitos fazem, poderíamos dizer que não existe ser humano que saiba de tudo, ou o todo dos fatos. Então, de certa forma, a premissa que lanço da ignorância X conhecimento, é refutada, pois não se encaixaria à ninguém…

Ok. Como exercício de lógica linear, serve. Mas, à medida que uma nova informação lhe chega, ela modifica tudo e é posta em relação com todo o saber até o momento. Ela pode conflitar ou afinizar com o que já tem lá em sua mente. E, dessas interações o novo ser humano renasce a todo instante. Para os que têm percepção para tal, pelo menos.

Pois bem, perguntam-se vocês: Por que dessa lenga-lenga toda até aqui?

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Explicando o Marxismo cultural?

Eu posso dizer que nos dias recentes tenho visto uma série de conflitos de informação e de opiniões. Como sempre, noto pessoas com capacidade de absorver ideias, digeri-las e transforma-las em seus próprios conceitos, enquanto vejo pessoas repetindo e repercutindo bobagens de outros… o que também é seu direito, embora, estejam à mercê de quem através de exercícios mentais, os desmascare.

Debates são complicados em essência, pois pode ir desde uma troca de conhecimento, até um conflito de egos. Pode evoluir duas pessoas, mas, também pode escancarar um “vencedor” como arrogante, tal qual um “perdedor” como burro ou estúpido.

Ter direito à opinião é sagrado. E externá-la pode ter efeito de consolidação do pensar, de troca, de soma, de raciocínio coletivo, mas, também pode virar proselitismo, onde a pessoa quer apenas sobrepujar a ideia alheia.

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Um debatedor com mais recursos, pode, através de estratagemas de linguagem -ou dialética- vencer tal debate, mesmo sem ter razão, como já nos brindava Arthur Schopenhauer em sua dialética erística. O filósofo escreveu “Como vencer um debate sem precisar ter razão – em 38 estratagemas e de lá pode-se tirar várias ferramentas para tal. Mas, qual a moralidade de tal debatedor que usa isso, mesmo sabendo que suas ideias são fraudulentas, ou de caráter duvidoso? Poderá vencer tal debate, e, muito pior, por empatia, afinidade e uma outra série de idiossincrasias, arrebatar uma legião de fãs, de incautos e de crédulos. E aí reside o problema ao meu ver.

O problema é quando os imbecis e loucos decidem a vida dos outros...

O problema é quando os imbecis e loucos decidem a vida dos outros…

É um complexo raciocínio, mas, tento exemplificar com o caso do advogado que defende seu cliente. Ele sabedor da culpa do cliente, teria que tentar garantir seus direitos à um julgamento justo e ao enquadramento certo no código de leis. Mas, há os que tentarão subverter todas as leis e a interpreta-las de forma escusa para tentar inocentar alguém que ele sabe que é culpado… e, para mim, este advogado deveria ser punido e condenado por um crime quando pratica tal coisa.

Bem, ele alegará que o cliente omitiu que era culpado a ele… então ele não é culpado de tal…

Já, para mim, é estudar mais e ser mais inteligente que os velhacos que se apresentarem no seu caminho... ou, na pior das hipóteses, aprender com as derrotas que lhe impuserem...

Já, para mim, é estudar mais e ser mais inteligente que os velhacos que se apresentarem no seu caminho… ou, na pior das hipóteses, aprender com as derrotas que lhe impuserem…

Sim, esta pode ser a alegação dele… mas, não retira o fato de que ele é um calhorda em essência, mesmo que use do benefício da dúvida e evoque o bom e velho “eu não sabia de nada”.

Pois bem, amigos, nossas afinidades nos definem. O que gostamos e o que não gostamos. O que compactuamos e o que antagonizamos. Dessas escolhas nascem nossas ações diárias. Ou a ausência delas.

Para alguns, o “não saber” é mais fácil. Pois, além de dar muito menos trabalho, sempre dá, ao final, para colocar a culpa em alguém por ter-nos ludibriado. Ok, é um estilo de vida. Mas, como tenho matutado nesses últimos dias, acabei concluindo com a frase “a ignorância empírica faz parte do aprendizado, já a ignorância optativa, é pura e simples burrice“.

Abster-se é entregar o poder a outro. Pensemos nisso. Manter relações sujas e sustentá-las, mesmo que seja com sua inaptidão ou abstenção, é compactuar. Você não precisa resolver o problema, mas pode não agravá-lo. Afinal, em uma sociedade, devemos pensar também naqueles que não nos afinizamos em nada. Isso é o dever de um cidadão de bem, e não apenas polarizar-se aos seus afins.

Aprendamos com os percalços e avancemos em moralidade... estar errado hoje não é pretexto para seguir errado...

Aprendamos com os percalços e avancemos em moralidade… estar errado hoje não é pretexto para seguir errado…