Salvadores x Salvados x Salvos

Já escrevi, há tempos, um texto sobre salvação e a necessidade de salvarmos a nós mesmos… mas, notei que há uma vontade de esmiuçar um pouco mais o caso, quando vejo ainda, pessoas debilmente tentando “salvar seus salvadores”… ou seja, uma criatura que julgam tê-las salvo, e, assim, depositando seus resquícios de esperança em algo ou alguém, além delas mesmas, encontra a necessidade de salvar-lhes a esperança, que é refletida em outrém…

O conceito de salvação é muito amplo… afinal, ele pode ir desde uma pessoa que lhe resgate, passando por alguém que lhe estenda a mão em uma hora difícil, a, até mesmo, uma simples tábua boiando durante um naufrágio…

Sim, ficou enrolado… vamos lá…

Comecemos diferenciando o conceito de salvo e de salvados (não incluirei os “sinistrados” no caso, embora, até pudesse)…

sal.vo
adj. 1. Fora de perigo; livre de risco, doença, morte ou desgraça. 2. Intacto; ileso, incólume. 3. Animador, salutar. 4. Resguardado, ressalvado. 5. Que obteve a bem-aventurança eterna. 6. Remido. 7. Excetuado, omitido. Prep. Exceto, afora.

salvados

s.m.pl. Objetos que escaparam de uma catástrofe, principalmente de incêndio ou naufrágio. Um leilão de salvados.

O dicionário não ajudou lá essas coisas no que eu gostaria de mostrar. Mas, sabemos que o termo “salvados” serve àqueles itens que sobreviveram a algum evento catastrófico, e, assim, são reutilizados mais tarde. Geralmente por um valor mais baixo do que o “original”.

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Pois bem, dito isso, adentro no cerne da questão inicial. Pessoas salvas, podem salvar-se a si mesmas, já,as “salvadas”, são utilizadas em um contexto diferente, sob o ponto de vista político-social, por exemplo.

Ok… não tá bom ainda… vamos adiante…

Vamos à tentativa de exemplificação…

A pessoa pode ter tido inúmeras dificuldades na vida, passado pelo inferno e um mar de fogo descalço, mas, lá pelas tantas, encontra subsídios em si mesma para sair da situação por conta própria. Ela pode ter se modificado profundamente no período complicado e, assim, forçada a dar um jeito por conta própria para, seja por instinto de sobrevivência ou por avanço intelectual, de sair dali. Ou seja, ela foi salva… mas não por algo ou alguém… foi salva por si mesma (e não entrarei em meandros religiosos neste caso).

Só Zeus salva... não, pera...

Só Zeus salva… não, pera…

Já, alguém que está na pior situação possível, já abatida. Seja por desistência ou por simplesmente não conseguir superar os obstáculos do momento, é resgatada dali por algo ou alguém (seja um evento ou um ente qualquer). Essa pessoa terá um “salvador”. E, assim, será ela uma pessoa, segundo minha proposição de raciocínio, uma “salvada” e não uma pessoa “salva”…

Sim, o jogo de palavras é apenas para demonstrar que vejo diferenças gritantes entre uma “salvação” e outra… tal qual, vejo enormes e colossais diferenças entre “salvadores”.

Pois eu acredito que alguns salvam pessoas, para que possam reutilizá-las depois… e por um “preço” muito mais acessível… como em um leilão de salvados…

Já, há os que simplesmente auxiliam pessoas a encontrarem suas próprias soluções para que não apenas saiam de situações complicadas, mas sim, que não mais voltem à elas. E, apesar de concordarmos que são esses os verdadeiros “salvadores”, os mesmos sequer se considerarão como tal, afinal, ajudar o próximo não é salvá-lo, segundo seus entendimentos, é apenas uma característica humana que todos deveríamos ter originalmente.

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Assim, podemos separar um tipo de salvador de outro, à medida de como os salvos ou salvados irão se reinserir no sistema após o evento.

Haverá quem siga com suas vidas adiante, com toda a gratidão do mundo para aqueles que os auxiliaram, e, os que irão sentirem-se em dívida com quem os resgatou, tornando-se partes úteis de seus sistemas.

Notem que eu não faço distinção de bem e mal nesses conceitos, afinal, acredito quem a percepção da pessoa salva ou salvada é que faz a diferença. Então, se no contexto todo ela sentir-se bem com isso, não podemos dar conotação má ao fato, mesmo que ela não entenda que tenha se inserido em um tipo de servidão por gratidão por conta disso.

Sob o ponto de vista moral, ainda exemplificando, poderia dizer que em um caso, uma pessoa vê uma outra em dificuldade, se afogando, por exemplo, e, a retira da água e a ensina a bater os braços ou a boiar para que evite afogamentos futuros. E, ao ser-lhe oferecida alguma recompensa, nega-a. Afinal, aquilo foi algo que ela fez de bom grado apenas. Já, em outro caso, a pessoa vê outra se afogando e, após retirá-la da água, exige-lhe favores em troca, para que quite-se a dívida de gratidão…

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Sim, o exemplo besta simplista do afogamento não alcança o ponto onde abrem-se nichos de mercado em função disso. Os mercados de pessoas incapazes de salvarem-se a si mesmas versus pessoas que obtém vantagens para si mesmas através de salvamentos de outros.

E, como em qualquer outro mercado, temos os “empreendedores” que formatam mercados, criam-nos e moldam-os em função de suas próprias estratégias. Assim, podemos, por exemplo, explicar o contexto da fábrica de “oprimidos” que temos hoje em dia. Não que não existam tais oprimidos, mas, simplesmente pelo fato de que alguns “salvadores” necessitem que exista cada vez mais oprimidos para que estes obtenham suas vantagens, ou alcancem seus objetivos.

Em termos de estratégia administrativa, podemos dizer que, em alguns casos, pessoas “salvadas” podem se constituir em uma matéria-prima muito mais acessível (sob o ponto de vista de custo), do que uma pessoa com capacidade de salvar-se a si mesma.

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Ofereça uma boia por um real em uma piscina de 2,5 metros de profundidade a uma pessoa que sabe nadar e ela provavelmente não a comprará, pois não necessita dela (ou comprará só porque tá barato demais, no exemplo merda ruim que dei de novo)… já, ofereça a mesma boia por 1000 reais a quem não sabe nadar e está já se afogando de fato…

Assim, teremos os aproveitadores de vítimas como quase que uma forma de “ganhar” a vida… que, por mais irônico que seja o termo “ganhar a vida” em relação à emprego e remuneração, pode estar diretamente ligado ao fato de ganhar algo evitando que pessoas percam. Nada errado até aí… só que no caso, quanto mais pessoas existirem num contexto de incapacidade, mais outros aproveitadores (ou “salvadores”) terão seus meios de atingirem seus objetivos de forma menos complicada.

...ou, a melhor forma de salvar-se, caro doutor...

…ou, a melhor forma de salvar-se, caro doutor…

Voltando à exemplificação, já no cunho político-social: utilizando a pirâmide de Maslow, podemos ver que as necessidades básicas estão no topo da pirâmide, enquanto a moralidade está no topo. Sendo assim, quanto mais pessoas lutando para não morrer de fome, ou precisando de abrigo, menos pessoas preocupadas com a moralidade teremos. O que, obviamente nos mostra que poderemos ter pessoas sendo salvas com um simples “prato de comida” (ou bolsa/dentadura/roupa/etc…), enquanto essas mesmas pessoas, em estágio mais avançado, começarão a questionar a moralidade do proposto. Assim, quem está com fome ou morrendo de frio, aceitará dinheiro vindo ele do tráfico, de desvios de merenda escolar, de desfalques no sistema de saúde, etc; enquanto quem não está morrendo de fome, preferirá não pegar o dinheiro sujo para si…

Pirâmide-de-Maslow

 

Portanto, amigos, retorno novamente ao assunto para mostrar que alguns benefícios podem ser atingidos às custas de coisas que nos arrependeríamos se não fosse o quadro desesperador do momento. Assim, sigo dizendo que, infelizmente, o caos é um ótimo fator mercadológico para quem age em cima de planos abusivos. O desespero “facilita” uma negociação… tal qual o medo a torna, inclusive, impositiva… mesmo que ela sequer fosse necessária em tempos “normais”…

Notemos que há oceanos de diferença entre os auxiliadores altruístas do pessoal do “me ajuda que eu te ajudo”… e não coloco aqui o altruísta que vive de forma franciscana e que não quer nada para si, mas sim aquele que entende que o benefício está na boa ação em si mesma, e não no contexto da “gratificação” como forma de “pagamento”.

Pensemos nisso… ou, simplesmente, pensemos…

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E no escritório…

E no escritório da empresa, o diretor chama o gerente…

  • Senhor Dilmar, o senhor pode me explicar o porquê da queda de todos os nossos números no balanço, se a nossa empresa está tendo faturamento record nos últimos anos?
  • Doutor Erlei, primeiramente eu gostaria de saudar o capim… os quatro ventos da mãe Terra, mãe nossa que, muito mais do que ser mãe, é também, no que se refere à nós, uma mãe, um pai e também uma avó, porque a avó é aquela figura que tem sempre um bolo de fubá atrás…
  • Do que o senhor está falando? Poderia ir direto ao assunto destes números?
  • Eu diria que há uma falta de humor dos nossos contabilistas, que, certamente estão sendo impactados pelos números da mídia e…
  • PERALÁ! Somos nós que mandamos os números do balanço… nós os divulgamos…
  • Sim, mas esses investidores que não confiam em números oficiais e arrumam outras fontes de pesquisa são todos neuróticos, disseminam o medo para que nosso valor diminua e…
  • Ok, ok, já entendi… mas, então, por que é que o pessoal do contas a pagar está emitindo relatórios de que não estamos pagando as contas em dia por falta de verba?
  • Esse pessoal não paga porque não quer… nossos números podem não estar lá essas maravilhas, mas, a concorrência está pior…
  • Não, não está… estão todos, apesar das dificuldades, apresentando perspectivas positivas e números maiores que os nossos…
  • Estão maquiando os números… prática velha e conhecida dos capitalistas malvados que só visam o lucro…
  • Nós também visamos lucro… todos visam… a diferença é que temos a meta de repassar esses lucros em benefício social…
  • Sim, tínhamos a meta… mas, eu abri mão da meta… aí, caso atinjamos a meta, dobraremos a meta…
  • O senhor anda bebendo? Está realmente raciocinando para falar isso?
  • O senhor está sendo preconceituoso comigo só porque eu sou mulher…
  • Não, o senhor é homem…
  • Não, sou uma mulher lésbica aprisionada num corpo masculino pequeno-burguês que age assim por causa da sociedade preconceituosa…
  • Mas o senhor tem 3 filhos… e dá em cima da secretária do marketing, que eu sei…
  • O senhor me acusa de assédio à uma colega?! O senhor é um conservador retrógrado que não tem o direito de me humilhar dessa maneira!!!
  • Não, apenas estou constatando os fatos… que o senhor vem aqui tentar deturpar…
  • Pois veja que nós, mulheres transexuais lésbicas, temos todo o direito de ter nosso lugar ao sol…
  • Sim… caso o senhor fosse uma… mas, igualmente, não tira o fato de o senhor estar falando absurdos que me fazem duvidar da sua sanidade mental… e isso, eu chamo de coerência para com meus funcionários…
  • Pois esse materialismo histórico arraigado no senhor é deplorável… só porque é o dono do meio de produção, acha-se acima do bem e do mal… o que apenas mostra o lado malvado da burguesia…
  • Burguesia? Eu sou o responsável pela arrecadação record da empresa… e, ainda quero saber cadê o dinheiro para pagar as contas… estamos com funcionários sendo algemados por suspeitas de desvio de dinheiro…
  • Eu não sabia de nada…
  • Mas são do seu setor…
  • Também não sei de nada…
  • Mas eles foram contratados pelo senhor e os documentos têm a sua assinatura…
  • Se eu assinei alguma coisa, não li… me traíram!!!
  • Como alguém que assina algo sem ler pode dizer que é traído, pode me explicar?
  • Eu confio muito no pessoal… eles me pediram para assinar…
  • Ah sim… então, vou pedir-lhe que assine aqui para mim também…
  • O que é isso?
  • Sua carta de demissão…
  • O senhor está querendo aplicar um golpe nessa empresa com isso! Eu sou o único responsável pela apuração das falcatruas que aqui ocorrem e que não eram apuradas antes… no mínimo é o senhor que deve estar por detrás de todos esses desvios…
  • Eu? E como eu estaria por detrás disso se a polícia não está aqui me algemando… e sim os seus funcionários?
  • Porque o senhor comprou a mídia, a polícia, provavelmente está também comprando os investidores que negativam o meu trabalho e, sobretudo, o senhor é um conspiracionista…
  • Ah sim… então a culpa é toda minha… tudo bem… mas, ainda assim, o senhor está demitido… ou por falcatrua, ou por incompetência… escolha o que quiser… assine aqui, ao lado da minha assinatura… sim… ao lado do nome Erlei Tohr…

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