Fé, fanatismo e submissão…

Os tempos atuais requerem, de fato, muita reflexão para que se aprenda a diferenciar as nuances de cada coisa. Fator fundamental, ao meu ver, para conseguir sair de uma enrascada ou atolar-se nela até o pescoço.

Vejamos. É notório que a fé e o fanatismo são separados por uma linha muito tênue… e, já dizia um ex-professor de filosofia meu (que graças a Deus não era exclusivo da esquerda): “é o que diferencia os que oram e acreditam, dos que amarram-se a cintos-bomba e explodem-se…”.

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Mas, eu diria que há um outro elemento que une uma coisa e outra. A submissão. A voluntária ou a involuntária. Podemos ser submissos, por exemplo, apenas sendo omissos (rimando e tudo).

Ok. Já sabemos que vem enrosco aí… e, portanto, vamos, como de praxe, ao amansa-burro primeiramente:


s. f. 1. Crença, crédito; convicção da existência de algum fato ou de veracidade de alguma asserção. 2. Crença nas doutrinas da religião cristã. 4. A primeira das três virtudes teologais. 5. Fidelidade a compromissos e promessas; confiança. 6. Confirmação, prova.

fa.na.tis.mo
s. m. 1. Excessivo zelo religioso. 2. Dedicação excessiva; paixão. 3. Adesão cega a uma doutrina ou sistema.

fa.ná.ti.co
adj. e s. m. 1. Que, ou o que se julga inspirado por Deus. 2. Que, ou o que se apaixona demasiadamente por uma causa ou pessoa.

sub.mis.são
s. f. 1. Ato ou efeito de submeter(-se); obediência, sujeição. 2. Disposição para aceitar um estado de dependência. 3. Estado de rebaixamento servil; subserviência.

sub.mis.so
adj. 1. Que denota submissão. 2. Que está em posição inferior. 3. Humilde, suplicante. 4. Dócil, respeitoso.

sub.ser.vi.en.te
adj. m. e f. 1. Que serve às ordens de outrem servilmente. 2. Muito condescendente.

ser.vil
adj. m. e f. 1. Relativo a servo. 2. Baixo, ignóbil, torpe, vil. 3. Subserviente, bajulador, sabujo. 4. Que segue rigorosamente um modelo ou original.

o.mis.so
adj. 1. Em que há falta ou esquecimento. 2. Descuidado, negligente.

Ok! Acho que já chega… o nosso querido amansa nos brinda com alguns links que podemos fazer, para entender o contexto de onde eu quero chegar.

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Pois, creio eu, que há oceanos de diferença entre uma coisa e outra. A fé, em si mesma, é algo bom, pois nutre a esperança de que algo melhor, ao menos, nos aguarda. Ela permite mudança. A fé no sentido de crer em algo bom e melhor. Não necessariamente o do sistema teológico em si. Mas, ainda assim, há os que dentro desse mesmo sistema, possam variar entre a fé e o fanatismo. Não só o sistema teológico. O sistema político, o sistema financeiro, ideológico, filosófico, administrativo, etc… afinal, a teoria dos sistemas nos diz que podemos analisar tudo de forma interdisciplinar…

 

A ‘teoria de sistemas estuda, de modo interdisciplinar, a organização abstrata de fenômenos, independente de sua formação e configuração presente. Investiga todos os princípios comuns a todas as entidades complexas, e modelos que podem ser utilizados para a sua descrição.

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Portanto, invoco a teoria dos sistemas (A la Yu-Gi-Oh) para que façamos as devidas correlações entre os diversos sistemas que nos rodeiam e o que cada um deles interfere em nosso dia-a-dia.

Vejamos que o fanatismo e a submissão são relacionados diretamente com o tratado social. Enquanto alguns “especialistas” de causas, ou fanáticos, no bom português, alardeiam as regras e não admitem que pessoas tentem sair delas, há os que, igualmente, submetem-se a tais regras de forma servil. De forma omissa.

Dependendo do que chamamos de "bem" e "mal"...

Dependendo do que chamamos de “bem” e “mal”…

Para os que creem nos sistemas religiosos, podemos, inclusive, dizer que omissões são pecados, ou faltas que cometemos. Lembro ainda, entre um cochilo e outro nas missas em que frequentei, do ato de contrição, onde todos repetíamos:

Confesso a Deus Todo-Poderoso
e a vós, irmãos(a)
que pequei muitas vezes
por pensamentos, palavras,
atos e omissões,
por minha culpa,
minha tão grande culpa.
E peço à Virgem Maria,
aos anjos e santos
e a vós, irmãos,
que rogueis por mim a Deus, nosso Senhor.

E que seu coração seja o meu caminho por toda a minha vida

Amem.

Inclusive grandes cagadas...

Inclusive grandes cagadas…

Tá bem, todos fazemos merda coisas que nos arrependemos na vida, mas, ao meu ver, erros constroem acertos futuros. Não no caso da omissão.  Ela não nos ensina nada. Ela apenas posterga alguma coisa. Embora, também, sob outro prisma, possamos pensar que omitir-se é um ato em si. É uma escolha de não fazer. Portanto, é nossa responsabilidade igualmente. O que, não considero culpa. Considero consequência.

Seguindo: a omissão e a submissão, por outro lado, têm seus pontos de convergência à medida em que delegamos a outros nossas escolhas. Sendo-lhes obedientes, ou, abstendo-nos de nossas vontades em pró de outras. Assim, seja lá por qual motivo seja, sendo obediente e servil à fanáticos, estamos automaticamente reforçando seus sistemas e suas retroalimentações.

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O momento atual, ao meu ver, é todo explicado sobre essa ótica de fé x fanatismo x submissão/omissão. E, com os devidos links, notamos que muitas pessoas de fé, acabam-se vendo enredados em contextos complexos e rígidos, para que, dentro de suas ideias de fé e crença, tenham que obedecer a sistemas fechados, que as restringem de expandir suas mentes para o aprimoramento de tais sistemas. Afinal, na mente dos fanáticos, qualquer mudança ao sistema é heresia, e, portanto, digna de punição. E por aí, muito do atraso do mundo se explica também (tudo, obviamente, na minha ótica e análise).

Vejamos em um cenário mundial. Notemos que forças binárias e antagônicas digladiam-se eternamente, fazendo com que necessariamente escolha-se um time ou outro, sendo que uma escolha, automaticamente, exclui a outra. E, sob a ótica de cada sistema, os prós e contras para quem não os seguem à risca os preceitos, são aterradores.

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Notemos as nuances de cada sistema. O que nos oferece de bom. O que nos ameaça como punição por descumprimento de regras e normas. O que nos engessa o pensar. E, sobretudo, pensemos, como a sociedade só evoluiu quando algum engraçadinho ousou não obedecê-los. É claro, que nem sempre com ganhos reais. Afinal, como já disse inúmeras vezes, as nuances são embaçadas e difíceis de enxergar a olho nu.

O que fazer então?

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Eu, como de costume, não dou receitas prontas. Pois não acredito mais em saídas mágicas. Acredito em construção de resultados. E, sendo assim, poderia dizer que apenas conhecendo cada nuance é que poderemos identificá-las. E, após a identificação, poder entender o que nos é proposto. Qual nosso ganho… e, sobretudo, a qual custo…

Escrevo esse pensamento à medida que vejo muita gente boa, bem intencionada, sendo engolida por esses sistemas que vendem benesses, que se autoproclamam bons e fundam assim “clubes” de gente do bem. Quando, na verdade, são vertentes de um plano dual e maniqueísta, onde o “bem” e o “mal”, obedecem a um mesmo senhor. Apenas, o “mal” exercendo um papel tão assustador, que faz com que todos aceitem o “bem”, independente do quão esse “bem” não seja lá essas coisas… mesmo que ele seja cheio de regras cerceantes, de ações ignóbeis e de obediência servil. De submissão.

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Certamente há quem goste de submissão. Que sinta, inclusive, prazer com ela… mas, aí entraremos na seara sexual-sadomasoquista, e, apesar de eu ter lá meus fetiches, não é lá bem a minha praia…

Ok... não é lá de todo ruim...

Ok… não é lá de todo ruim…

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O profeta, as ostras e as pérolas

Certa feita, um homem desesperado caminhava sem rumo pela orla marítima em um mundo muito distante. Pensava em seus problemas e como resolvê-los. Os tempos eram difíceis e sua vida se atrapalhava em virtude de dinheiro.

Assim, enquanto lamentava, cabisbaixo, perto de algumas pedras, encontrou uma comunidade de ostras que viviam pacificamente.

Observou por instantes e viu que, apesar de primitivas, vivam suas vidas de forma relativamente tranquila. Naquele ambiente rochoso, com a água do mar a todo instante batendo, podiam extrair tudo o que necessitavam.

Notou também, uma certa comoção em torno de uma ostra, que convalescia.

Imaginando do que se tratava, o homem aproximou-se e apresentou-se como um profeta. Contou às ostras que aquela que convalescia havia sido agraciada com uma dádiva divina. A de produzir tesouros internos.

Sendo assim, o homem diz que o sacrifício da ostra não seria em vão e que ela seria recebida com todas as glórias em um lugar maravilhoso onde todas as ostras viveriam felizes para todo o sempre.

Apesar da tristeza com que as demais ostras receberam a notícia, foram novamente reconfortadas pelo homem que seguia afirmando que aquele sofrimento todo era uma dádiva e que ele, como intermediador divino, iria por fim a todo o sofrimento dela, garantindo sua passagem ao outro mundo. O mundo de sonhos e de realizações.

Após instantes, as outras ostras, já conformadas, aceitaram o destino daquela. E a própria já se sentia reconfortada por ter seu sofrimento terminado e as promessas de bem-aventurança futura.

Assim, o homem abre a ostra e mostra a todos o maravilhoso tesouro que o sofrimento dela havia produzido. Com discursos inflamados sobre a beleza, a perfeição, o brilho e a bênção que era ter a honra de produzir a pérola, faz com que as demais passassem, inclusive, a invejar o destino daquela que havia partido.

Dias se passam, e o homem retorna para o local, sempre procurando pelos outros “escolhidos”. Aqueles que haviam sido agraciados com a escolha divina. Encontrava, eventualmente, uma ou outra ostra nessa situação, sempre repetindo o ritual de exaltação do maravilhoso destino dessas ostras.

As que não conseguiam a “graça”, sempre indagavam o homem para que lhes ensinasse o caminho mais rápido para atingir suas metas.

O homem conta uma história sobre o toque divino, que perfuraria suas conchas e atingiria seus interiores, forçando assim, com que elas imediatamente iniciassem o processo de produção do tesouro através de seus sofrimentos. Contou-lhes que o sofrimento engrandeceria a tarefa, pois as mais belas pérolas viriam dos maiores sofrimentos. E, que cada uma, igualmente, estaria mais evoluída que as outras à medida que produzissem mais de uma pérola ou, de tamanhos maiores.

As ostras entravam em estados frenéticos de êxtase, buscando a todo instante o tal fator externo que lhes proporcionaria o tão sonhado destino final. E, assim, buscavam refazer os passos das demais ostras que ascenderam em seus sofrimentos. Peregrinar por locais por onde passaram, copiar hábitos…

O homem, com o passar dos tempos, notou que muitas delas conseguiram produzir as esperadas pérolas. Mas, com isso, a população começou a diminuir. Assim, contou-lhes o quão importante seria que multiplicassem-se entre si antes de atingir o estado de graça. Que, seus caminhos deveriam seguir uma cartilha, que visava torna-las mais dignas da graça maior.

Assim, as ostras reproduziam-se até certa idade, o máximo possível, até que pudessem buscar de forma natural, a produção das pérolas.

Nem todas produziam pérolas perfeitas, sendo assim, o homem dizia a elas que suas entregas à causa não haviam sido suficientes. Também, demonstrando às demais que o tesouro poderia não ser tão valioso assim, se cada uma delas não se esforçasse para seguir as regras que ele havia passado.

Exaltando as melhores produtoras e corrigindo as que não conseguiam o padrão maior de qualidade, o homem manteve as atenções das ostras totalmente sob controle. Com vários cerimoniais e discursos inflamados sobre a conduta de cada uma delas.

As ostras que eram levadas, nunca mais eram vistas pelas que ficavam, dando embasamento à teoria de que haviam transcendido o local e o ambiente em que viviam.

Certo dia, uma das ostras, indignada com o sistema que vivia a comunidade, resolve investigar melhor o homem e seus ditos e histórias.

Pensa que o sofrimento poderia gerar tesouros, mas, ainda assim, era um processo que não gerava bem estar algum às ostras e seus modos de vida. E, principalmente, pensou sobre o tal tesouro. A quem ele era realmente um tesouro? Não a elas, que, apenas queriam verem-se livres de tal sofrimento o quanto antes.

Fez de tudo para que não tivesse como gerar uma pérola. Fugiu de todas as regras e indicações do homem e de suas próprias irmãs, que entusiasmadas com a causa, faziam de tudo para que o ciclo da “virtude” se mantivesse.

Pregavam a ela que eram úteis em seus sofrimentos para uma causa maior. Uma causa além de seus entendimentos e compreensões. Que, apenas a fé de saber que alguém se beneficiaria disso, além da promessa futura, eram motivos de orgulho suficientes para seguirem.

A ostra inconformada, tenta dissuadir as outras, dizendo-lhes que o modo de vida anterior era calmo e tranquilo. E, que elas eram felizes sem a necessidade de nada daquilo.

As outras acusam-na de ser agitadora e de heresia, fazendo com que se isolasse da comunidade.

E, durante o tempo em que se manteve afastada, a ostra dissidente começa a sentir os efeitos de uma pérola.

Ela revolta-se contra tudo aquilo, que, mesmo fazendo parte de suas naturezas, não era nada agradável. E tampouco útil a ela mesmo, que não via sentido algum naquilo tudo.

Ela resiste à dor e mantém-se no exílio. E, mesmo com as visitas do homem, ela nega-se a dizer que está sofrendo e que tem uma pérola em si.

O tempo se passa e ela percebe que novas inserções do agente externo estão se formando nela. E, mesmo com seu interior lutando contra aquilo tudo, com todas as forças que tinha, nega-se a deixar transparecer nada daquilo.

O homem, um dia, vê que a ostra havia se alterado e que marcas em sua concha eram visíveis, caracterizando assim, a produção de pérolas.

Ele resolve levá-la à cerimônia com as demais, exaltando seu exílio como sendo uma purificação extrema e que ela havia, através daquela situação extrema, tornado-se a maior de todas as ostras que já haviam habitado aquela comunidade.

Nesse momento, a ostra toma a palavra para si e diz que o exílio, de fato, havia lhe ensinado muito. Havia, sobretudo lhe ensinado que era possível viver com o sofrimento. Aprendeu que era possível seguir a vida, mesmo com as agruras do processo, e que, mais à frente, cessavam as dores. Também disse ter aprendido que muitas outras pérolas poderiam ser produzidas sem a necessidade que nenhuma delas fosse levada à lugar algum. E, sobretudo, diz ter aprendido que as pérolas são realmente tesouros. Mas, por mais que pudessem ser tesouros por suas belezas e formatos, para ela, o valor havia se tornado inestimável. Ela havia aprendido que todas as pérolas se formavam não para exaltar seus sofrimentos, mas sim, para protegê-las de um parasita que as atacava. E, cada pérola que agora continha nela, era a lembrança de uma vitória sobre os agressores. Uma lembrança de sua resistência, de sua bravura e sua inconformidade em desistir.

Olhou para o homem e agradeceu por tudo, mas, que naquele momento, não precisaria de homenagem alguma. E, sequer queria ser conduzida ao paraíso. Pediu que como prêmio, pudesse viver sua vida até os últimos dias, e, ao final, quando a hora derradeira chegasse, suas pérolas fossem lembretes às demais, de que é possível triunfar sobre qualquer sofrimento. E que a recompensa era a sapiência que cada pérola lhe proporcionou. Seu verdadeiro valor estava, paradoxalmente, não na quantidade de pérolas geradas, que ela sabia serem dezenas, e nem na beleza estética de cada uma delas, mas sim, na forma com que cada uma delas foi gerada.

Assim, o homem viu seu discurso perdendo força, até que, dando-se conta de que ali não mais teria influência, foi em busca de uma nova comunidade para “orientar”…

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Post Scriptum: Arrisquei-me nessa tentativa de conto para pensar junto à vocês, a qual sistema nosso sofrimento interessa? Em qual contexto? A quem ele é belo? Ele existe por existir ou há motivos para tal?

Não que precisemos nos exilar para aprender o real motivo pelo qual essas coisas acontecem, mas, certamente é primordial refletir a respeito. Se ele é algo que, de fato, nos eleva em um contexto maior de evolução, ou, se simplesmente ele é produto de uma causa que quer produzir ostras em hospedeiros dispostos à morrer pela causa?

Para as que aprenderam algo com o processo, o parasita pode ser considerado realmente um “toque divino”. Já, para as que simplesmente se atiraram no processo, crendo que sofrer é bom, terão seus anseios atingidos. Sofrerão e serão úteis a uma causa que sequer compreendem direito.

Pensemos nisso… ou, simplesmente, pensemos…

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Salvadores x Salvados x Salvos

Já escrevi, há tempos, um texto sobre salvação e a necessidade de salvarmos a nós mesmos… mas, notei que há uma vontade de esmiuçar um pouco mais o caso, quando vejo ainda, pessoas debilmente tentando “salvar seus salvadores”… ou seja, uma criatura que julgam tê-las salvo, e, assim, depositando seus resquícios de esperança em algo ou alguém, além delas mesmas, encontra a necessidade de salvar-lhes a esperança, que é refletida em outrém…

O conceito de salvação é muito amplo… afinal, ele pode ir desde uma pessoa que lhe resgate, passando por alguém que lhe estenda a mão em uma hora difícil, a, até mesmo, uma simples tábua boiando durante um naufrágio…

Sim, ficou enrolado… vamos lá…

Comecemos diferenciando o conceito de salvo e de salvados (não incluirei os “sinistrados” no caso, embora, até pudesse)…

sal.vo
adj. 1. Fora de perigo; livre de risco, doença, morte ou desgraça. 2. Intacto; ileso, incólume. 3. Animador, salutar. 4. Resguardado, ressalvado. 5. Que obteve a bem-aventurança eterna. 6. Remido. 7. Excetuado, omitido. Prep. Exceto, afora.

salvados

s.m.pl. Objetos que escaparam de uma catástrofe, principalmente de incêndio ou naufrágio. Um leilão de salvados.

O dicionário não ajudou lá essas coisas no que eu gostaria de mostrar. Mas, sabemos que o termo “salvados” serve àqueles itens que sobreviveram a algum evento catastrófico, e, assim, são reutilizados mais tarde. Geralmente por um valor mais baixo do que o “original”.

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Pois bem, dito isso, adentro no cerne da questão inicial. Pessoas salvas, podem salvar-se a si mesmas, já,as “salvadas”, são utilizadas em um contexto diferente, sob o ponto de vista político-social, por exemplo.

Ok… não tá bom ainda… vamos adiante…

Vamos à tentativa de exemplificação…

A pessoa pode ter tido inúmeras dificuldades na vida, passado pelo inferno e um mar de fogo descalço, mas, lá pelas tantas, encontra subsídios em si mesma para sair da situação por conta própria. Ela pode ter se modificado profundamente no período complicado e, assim, forçada a dar um jeito por conta própria para, seja por instinto de sobrevivência ou por avanço intelectual, de sair dali. Ou seja, ela foi salva… mas não por algo ou alguém… foi salva por si mesma (e não entrarei em meandros religiosos neste caso).

Só Zeus salva... não, pera...

Só Zeus salva… não, pera…

Já, alguém que está na pior situação possível, já abatida. Seja por desistência ou por simplesmente não conseguir superar os obstáculos do momento, é resgatada dali por algo ou alguém (seja um evento ou um ente qualquer). Essa pessoa terá um “salvador”. E, assim, será ela uma pessoa, segundo minha proposição de raciocínio, uma “salvada” e não uma pessoa “salva”…

Sim, o jogo de palavras é apenas para demonstrar que vejo diferenças gritantes entre uma “salvação” e outra… tal qual, vejo enormes e colossais diferenças entre “salvadores”.

Pois eu acredito que alguns salvam pessoas, para que possam reutilizá-las depois… e por um “preço” muito mais acessível… como em um leilão de salvados…

Já, há os que simplesmente auxiliam pessoas a encontrarem suas próprias soluções para que não apenas saiam de situações complicadas, mas sim, que não mais voltem à elas. E, apesar de concordarmos que são esses os verdadeiros “salvadores”, os mesmos sequer se considerarão como tal, afinal, ajudar o próximo não é salvá-lo, segundo seus entendimentos, é apenas uma característica humana que todos deveríamos ter originalmente.

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Assim, podemos separar um tipo de salvador de outro, à medida de como os salvos ou salvados irão se reinserir no sistema após o evento.

Haverá quem siga com suas vidas adiante, com toda a gratidão do mundo para aqueles que os auxiliaram, e, os que irão sentirem-se em dívida com quem os resgatou, tornando-se partes úteis de seus sistemas.

Notem que eu não faço distinção de bem e mal nesses conceitos, afinal, acredito quem a percepção da pessoa salva ou salvada é que faz a diferença. Então, se no contexto todo ela sentir-se bem com isso, não podemos dar conotação má ao fato, mesmo que ela não entenda que tenha se inserido em um tipo de servidão por gratidão por conta disso.

Sob o ponto de vista moral, ainda exemplificando, poderia dizer que em um caso, uma pessoa vê uma outra em dificuldade, se afogando, por exemplo, e, a retira da água e a ensina a bater os braços ou a boiar para que evite afogamentos futuros. E, ao ser-lhe oferecida alguma recompensa, nega-a. Afinal, aquilo foi algo que ela fez de bom grado apenas. Já, em outro caso, a pessoa vê outra se afogando e, após retirá-la da água, exige-lhe favores em troca, para que quite-se a dívida de gratidão…

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Sim, o exemplo besta simplista do afogamento não alcança o ponto onde abrem-se nichos de mercado em função disso. Os mercados de pessoas incapazes de salvarem-se a si mesmas versus pessoas que obtém vantagens para si mesmas através de salvamentos de outros.

E, como em qualquer outro mercado, temos os “empreendedores” que formatam mercados, criam-nos e moldam-os em função de suas próprias estratégias. Assim, podemos, por exemplo, explicar o contexto da fábrica de “oprimidos” que temos hoje em dia. Não que não existam tais oprimidos, mas, simplesmente pelo fato de que alguns “salvadores” necessitem que exista cada vez mais oprimidos para que estes obtenham suas vantagens, ou alcancem seus objetivos.

Em termos de estratégia administrativa, podemos dizer que, em alguns casos, pessoas “salvadas” podem se constituir em uma matéria-prima muito mais acessível (sob o ponto de vista de custo), do que uma pessoa com capacidade de salvar-se a si mesma.

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Ofereça uma boia por um real em uma piscina de 2,5 metros de profundidade a uma pessoa que sabe nadar e ela provavelmente não a comprará, pois não necessita dela (ou comprará só porque tá barato demais, no exemplo merda ruim que dei de novo)… já, ofereça a mesma boia por 1000 reais a quem não sabe nadar e está já se afogando de fato…

Assim, teremos os aproveitadores de vítimas como quase que uma forma de “ganhar” a vida… que, por mais irônico que seja o termo “ganhar a vida” em relação à emprego e remuneração, pode estar diretamente ligado ao fato de ganhar algo evitando que pessoas percam. Nada errado até aí… só que no caso, quanto mais pessoas existirem num contexto de incapacidade, mais outros aproveitadores (ou “salvadores”) terão seus meios de atingirem seus objetivos de forma menos complicada.

...ou, a melhor forma de salvar-se, caro doutor...

…ou, a melhor forma de salvar-se, caro doutor…

Voltando à exemplificação, já no cunho político-social: utilizando a pirâmide de Maslow, podemos ver que as necessidades básicas estão no topo da pirâmide, enquanto a moralidade está no topo. Sendo assim, quanto mais pessoas lutando para não morrer de fome, ou precisando de abrigo, menos pessoas preocupadas com a moralidade teremos. O que, obviamente nos mostra que poderemos ter pessoas sendo salvas com um simples “prato de comida” (ou bolsa/dentadura/roupa/etc…), enquanto essas mesmas pessoas, em estágio mais avançado, começarão a questionar a moralidade do proposto. Assim, quem está com fome ou morrendo de frio, aceitará dinheiro vindo ele do tráfico, de desvios de merenda escolar, de desfalques no sistema de saúde, etc; enquanto quem não está morrendo de fome, preferirá não pegar o dinheiro sujo para si…

Pirâmide-de-Maslow

 

Portanto, amigos, retorno novamente ao assunto para mostrar que alguns benefícios podem ser atingidos às custas de coisas que nos arrependeríamos se não fosse o quadro desesperador do momento. Assim, sigo dizendo que, infelizmente, o caos é um ótimo fator mercadológico para quem age em cima de planos abusivos. O desespero “facilita” uma negociação… tal qual o medo a torna, inclusive, impositiva… mesmo que ela sequer fosse necessária em tempos “normais”…

Notemos que há oceanos de diferença entre os auxiliadores altruístas do pessoal do “me ajuda que eu te ajudo”… e não coloco aqui o altruísta que vive de forma franciscana e que não quer nada para si, mas sim aquele que entende que o benefício está na boa ação em si mesma, e não no contexto da “gratificação” como forma de “pagamento”.

Pensemos nisso… ou, simplesmente, pensemos…

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Imagina, querido John…

 

Querido John, sou seu fã e creio que sua obra-prima, a “Imagine” seja um símbolo mundial da busca pela paz e igualdade. Também acredito que tu não sejas apenas um sonhador, pois qualquer ser humano que tenha um pouco de bondade em si, certamente não compactua com o monte de iniquidades que assolam o planeta, mais do que nunca, após a tua partida.

Mas olha só, querido, creio que o pessoal tenha pegado tuas palavras e as colocado em um contexto que não sei bem se era o que tu imaginavas.

Eu também tenho... ser normal no mundo de hoje é atestado de insanidade...

Eu também tenho… ser normal no mundo de hoje é atestado de insanidade…

Sim, ao dizeres que um mundo sem “paraíso” ou “sem religião”, creio que falavas algo sobre os conceitos religiosos e suas distorções, onde o pessoal age como cães adestrados em busca de suas recompensas… mas, hoje prega-se o ateísmo em função disso.

Ok, iremos discutir por horas e mais horas sobre o conceito de Deus… aquele que existe e é a soma de tudo, contra aquele criado e inventado, para que seja o produto final de um projeto.

Ah, ok... pensamos parecido...

Ah, ok… pensamos parecido…

Pois bem, John, imagina então, como seria um mundo onde mais do que não haver religiões… imagine um mundo onde pessoas espiritualizassem-se da forma que mais lhes fosse apraz. Que cada um tivesse seu conceito próprio de divindade, de paraíso, de objetivos e recompensas. Os seus… e não os que estão por aí, dispostos como opções pouco apetitosas para o “consumidor”?

Acima de nós, apenas o céu… mas, te pergunto: qual céu? Aquele imenso, que estende-se ao infinito, num imenso vazio de bolas de fogo flutuando num vácuo, com outras de outros materiais as orbitando, ou um céu onde possam haver outras culturas, outras mentes maiores ou mesmo até, civilizações que tenham pisado por aqui em algum tempo, como algumas culturas antigas sugerem?

Imagine, querido, que tivéssemos, além de um céu acima de nós, uma consciência maior. Uma que nos permitisse imaginar que somos parte de tudo. Que tanto subindo aos céus, quanto internalizando em nossas frequências atômicas, alcançássemos o mesmo todo?

Aê, garoto... é disso que eu falava...

Aê, garoto… é disso que eu falava…

Ao falar em um mundo sem países, creio que quiseste dizer um lugar onde pessoas pudessem fazer parte de uma comunidade humana. Independente de sua origem. Que todos tivessem um convívio pacífico. E, aí, é claro, voltamos ao conceito de “não religião” proposto. Afinal, meu velho, deves estar acompanhando daí de algum lugar, que provavelmente não é o paraíso, pois não o querias, mas, ainda assim, tua consciência deve seguir existindo em algum lugar… e, daí, deves estar vendo que mesmo quebrando-se barreiras e fronteiras, algumas pessoas simplesmente não têm ainda condições de conviver com outras. E não só por questões limítrofes de países ou religiões. Trata-se de algo maior. De algo que reside em cada uma dessas pessoas. De serem simplesmente pacíficas por si só. Por exemplo: eu acredito que para uma pessoa saber que estuprar uma mulher e agredi-la é um ato torpe, covarde e mais um monte de outros xingamentos que aqui me ocorrem, ela não precisa estar convertida a alguma religião. Ou, mesmo, como tu propuseste, despida de todas elas. Afinal, bem ou mal é coisa que não necessariamente se aprende, mas, se vivencia.

Calma, meu velho... não é pra tanto... sem sonhos, não se projetam realidades...

Calma, meu velho… não é pra tanto… sem sonhos, não se projetam realidades…

Veja, querido, que o teu canto comoveu bilhões de pessoas, eu creio, mas, poucos se valem dele para realmente agir de forma melhor. E, assim também é com as religiões. Algumas pregam o bem, mas, seus seguidores não deixam de ser abestalhados só porque se especializaram em um livro específico. Eles precisam aprender a agir por conta própria, de forma correta, independente da “recompensa” que lhes for oferecida.

Sim... Sim!!! Por isso que cuidar de si antes de tentar cuidar dos outros é primordial...

Sim… Sim!!! Por isso que cuidar de si antes de tentar cuidar dos outros é primordial…

Tal qual devolver uma carteira recheada de dinheiro na rua. Deve-se devolver simplesmente porque é o certo a se fazer. Não para ficar com os louros da fama em uma matéria exaltando o óbvio, e, tampouco para ser recompensando com algum presente por isso.

Sabia que tu me entenderia...

Sabia que tu me entenderia…

Bem, agora vem a parte mais complicada… imagine um mundo sem posses… e, na mesma estrofe, propor um mundo sem ganância e sem fome…

Olha só, meu querido, já tentamos isso… lá na idade das pedras. E não funcionou… ninguém tinha nada… todo dia, saía-se para caçar, pelo menos até que aprendemos a plantar. E, daí, estabeleceu-se o escambo, a necessidade de estoque e etc… ainda mais que as pessoas viam que não duravam para sempre. Viam que ficavam velhos e lentos para a caça. E que seus filhos e dependentes ainda assim, deviam comer… pois daí a necessidade de evoluir, meu velho. Não se trata de ganância ser previdente e imaginar que poderíamos ser feridos durante uma caçada e que, talvez, tivéssemos que focar em algum estoque para tal.

Pois é... por isso é que temos que começar a ser previdentes e parar de querer depender dos outros...

Pois é… por isso é que temos que começar a ser previdentes e parar de querer depender dos outros…

Mas, concordo na parte da irmandade humana… acho que aí seria uma ótima solução. O pessoal vivendo em comunidades, com ajuda mútua, com cada um fazendo o melhor de si, tanto para si quanto para os que o cercam. Nisso sim tu acertastes em cheio!

E eu, em minha arrogância de tentar retocar uma obra-prima, te proporia um mundo sem política e sem ideologias de manada. Sim, pode parecer controverso, à medida que eu creio na vida em comunidade. Mas, veja bem, querido, o princípio de comunidade no qual eu acredito é baseado, estruturalmente no poder do indivíduo. No bem estar de cada um, primeiramente, que se expande e alcança a todos. Creio em um conceito onde a pessoa seja tão feliz a ponto de querer compartilhá-la com o mundo todo. E não naquele conceito onde deva-se abrir mão de si mesmo em função do outro. Esse pseudo-altruísmo é o que tem ferrado com tudo. Ele multiplica pessoas infelizes, sacrificando suas próprias felicidades em nome de outros. E, pode aqui até parecer que eu estou sendo chato demais, mas, acaba justamente entrando naquele conceito religioso de sofrimento x recompensa futura e não sabida em algum “paraíso”, dos quais pediste para imaginarmos o mundo livre…

Bingo! Poder para o povo significa poder para cada um de nós... o povo não é uma entidade em si, mas sim a soma de pessoas...

Bingo! Poder para o povo significa poder para cada um de nós… o povo não é uma entidade em si, mas sim a soma de pessoas…

Que tal então, fecharmos um acordo agora em uma estrofe do tipo:

“Imagine o mundo sem salvadores;

sim, é preciso ter coragem para tal;

cada um cuidando de si mesmo com garra;

e não mais ser vítima de coisa alguma;”

Ou, se preferir:

“Imagine todas as pessoas, 

vivendo em harmonia consigo mesmas;

saindo de seus casulos de escolhas marcadas;

e rumando ao que nasceram para fazer;”

Bem, tu podes dizer que eu estou sonhando… mas eu acho que eu não estou só… eu espero que um dia, todos unam-se em suas próprias causas de felicidade. E, então, o mundo viverá como um só…

Imagine só, querido John…

#SemMaisMeritíssimo

#SemMaisMeritíssimo

Querido Papai Noel…

E na noite de Natal…

Papai Noel (P.N.): “E então, Rogério, foste bonzinho durante o ano?”

Eu: “Não creio em dualismos de que todo mundo seja bom ou mau em essência, mas, creio que oscilei mais dentro do correto do que o que eu acho que foi errado… embora, meus erros tenham me ensinado algo para que tente não cometê-los de novo… então, acho que sim…”

P.N.: “Er… deixa ver… isso não está bem estipulado aqui… pera… média harmônica… não, tem viés… ponderada… ah, sim sim, acho que vamos calcular a moda pelo número de ocorrências positivas ou negativas, ponderar o desvio padrão e assim, estatisticamente ver como tu procedeu…”

Eu: “Estatisticamente, se eu comer 10 pães e o senhor nenhum, pela média, comemos 5 cada, enquanto eu engordei e o senhor morreu de fome… se bem que com essa barriga…”

P.N.: “Olhalá! Vê o que vai falar… mas, então, como vamos ponderar se foste bom ou não?”

Eu: “Bem, eu não fiz nada que pudesse prejudicar alguém diretamente… caso tenha feito, foi indiretamente e não intencionalmente… no máximo, minhas escolhas erradas trouxeram mais dissabores a mim mesmo, mesmo quando refletiram nos outros, justamente porque não sinto prazer algum em ver alguém se ferrando. Muito menos quando é por minha causa…”

P.N.: “Isso é interessante, mas, ainda assim, não sei bem o que dizer…”

Eu: “Olha, quer saber? Eu fui chato pra caramba… eu enchi a paciência do pessoal ao longo do ano, com as minhas irritações e inquietações mentais… compartilhei com todos o que se passava pela minha mente e fiz questão de deixar claro que o meu caminho é só meu, e, que quem quisesse poderia me acompanhar, do contrário, que não atrapalhasse pelo menos…”

P.N.: “Mas isso, assim dito, parece que foi honesto da tua parte…”

Eu: “Honestidade, hoje em dia, tem seu preço. Perde-se de um lado e os ganhos, quase imperceptíveis a olho nú…”

P.N.: “Como assim?”

Eu: “As medidas de “sucesso” se dão pelo que se conquista. Pelo que se atinge. E, para mentes limitadas notarem isso, é basicamente necessário que isso seja demonstrado… visualmente, de preferência, pois presumir e perceber coisas é dom que nem todos têm…”

P.N.: “Isso já parece rancoroso da tua parte…”

Eu: “Pode ser que sim… acho que é mesmo… porém, o rancor é um aviso do sistema interno, corpo e mente, de que você tem que trabalhar na coisa… e, assim, aquilo vai te demandar tempo para que aprenda a lidar e a tirar o ensinamento certo…”

P.N.: “Mas, então, como poderíamos concluir como foi teu ano?”

Eu: “Talvez se pararmos de pensar em “saldos finais” e tecer uma visão mais analítica da coisa… ponto a ponto…”

P.N.: “Ok. Diga lá então…”

Eu: “Em situações em que eu poderia ter tentado obter vantagens por caminhos que minha consciência não concordava, eu preferi não ir adiante. Se fui perguntado sobre algo, respondi com o meu coração e não da forma “politicamente correta”. Se fiz algo para a caridade, fiz porque eu tinha vontade e não para que me achassem um cara bacana. Se perdoei, o fiz porque a raiva estava me fazendo mal, e não porque um dogma me dizia que era o correto. Se magoei alguém, sofri porque a visão de alguém sofrendo, ainda mais por minha causa, me faz mal. E não porque estava escrito em algum lugar que eu deveria pedir perdão. Se alguém me ajudou da forma que foi, mesmo que o resultado final não tenha sido o esperado, agradeci. Não porque o resultado foi bom ou não, mas, porque a disposição de alguém para me ajudar é o que conta. Se agi corretamente, e, ainda assim o resultado foi uma bosta, creio que, apesar da brabeza, eu faria tudo igual novamente…”

P.N.: “E isso te torna um cara bom?”

Eu: “Aí é que está… não importa… não importa o rótulo que irão me dar. Importa é o fato de eu estar tranquilo na minha consciência, mesmo que a sensação de “vitória” ou de “sucesso” não esteja me acompanhando no momento… acho que tenho muita coisa ainda para fazer e para melhorar…  mas quer saber? Não é em um ano que se resolve uma vida… é na soma dos anos…”

P.N.: “Acho que sim… mas, para o presente de Natal…”

Eu: “Desculpa interromper, mas, sendo bem direto e honesto, se eu tiver que me sujeitar à regras de comportamento, só para ganhar um presente ao final do ano, ou melhor, uma vez por ano, creio que não seja lá o meu conceito de evolução… isso parece mais um adestramento canino…”

P.N.: “Aí tu já estás me ofendendo… a intenção é que as pessoas sejam boas ao longo do ano e, assim, sejam recompensadas ao final…”

Eu: “Adestramento, no bom português… Enfim, acho que o senhor não precisa me dar nada, sinceramente. Afinal, não se trata de alguém me recompensar ou me dar algo por eu ter correspondido às suas expectativas. Trata-se de eu mesmo fazê-lo, pois fui bom para mim, o que, de acordo com a minha forma de ver o mundo, se trata de estender aos que me cercam, o que eu quero para mim…”

P.N.: “Mas o presente…”

Eu: “Dê para alguém que realmente precisa de um mimo para entender que tudo o que passou, valeu a pena. Para mim, basta a consciência tranquila… Forte abraço, meu bom velhinho…”

P.N.: “FELIZ NATAL…”

Eu: “Sim… e Ho-Ho-Ho pro senhor também…”

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A loucura nossa de cada dia…

Já disseram que, de médico e louco, todo mundo tem um pouco…

Bem, para mim, a premissa é verdadeira, pois, embora seja administrador, sou metido a dar prognósticos de doenças… pelo menos, as que eu já tive e lembro dos sintomas e tratamentos… é claro que, com a ajuda do São Google, padroeiro dos autodidatas (ou auto-idiotas), geralmente costuma funcionar para casos simples.

Mas, a parte do louco… bem, essa eu me identifico bastante…

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Ainda ontem estive em um jantar com amigos de infância… amigos há mais de 30 anos, que, hoje, considero uma família. Pois bem, durante a conversa, ficou a minha verve em externar todas as sandices que me ocorrem, evidente a todos. Principalmente aos que são meus amigos no Facebook (e que não deixaram de seguir minhas postagens). Respondi um “ame-o ou deixe-o”, para resumir a minha fase com ausência de meios termos, coisa que anda também, bem evidente.

Rimos dos causos antigos e velhas histórias que ao longo dos 30 anos repetem-se em reencontros. Nessa irmandade criada, temos um publicitário brilhante, um competente funcionário público, um engenheiro de sucesso, um médico genial… e eu. Também percebi que todos têm suas vertentes “insanas”. As declaradas, as não declaradas e as reprimidas.

Sim, eu imagino (na minha insanidade assumida) que estejamos divididos entre esses três tipos.

Temos os que declararam isso, como eu, os que não declararam, pois ainda sequer se deram conta de que são ou estão insanos, e, para finalizar, os que já se deram conta, mas, tentam aparentar a vivência dentro da “normalidade”.

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Bem, e daí? – devem estar perguntando-se…

Pois bem, explico:

Acredito que a -dita- insanidade ou loucura, ou qualquer outro nome que queiram dar, trata-se de uma dissonância nossa em relação a algo… ou a alguém…

Complicou, né?

Bem, sigo tentando explicar…

Eu imagino que alguns tipos de “problemas mentais” (para achar um termo genérico para a tal insanidade) são sintomas. E não causas em si. Já escrevi sobre isso, certa vez… não lembro o texto e nem a data.

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E, tal qual a tosse é um sintoma de uma doença que possa variar entre uma simples gripe, alergia, refluxo… até tuberculose ou coisas mais graves… e é aí que eu quero chegar.

Essa tosse é o convite à investigação, para que, durante a pesquisa, acabemos reavaliando processos, modo de vida, reeducações alimentares ou de atividades… enfim, é durante o check up que acabamos tendo uma visão do todo e, nele, acabamos tomando medidas de melhoria.

Certamente tudo isso é para quem se dispor a investigar, e, sobretudo, a se adaptar para propiciar tal melhoria…

Posso usar outro exemplo, onde uma pessoa que identificou como causa da tal tosse, um péssimo hábito, como fumar, por exemplo, e, com o início do tratamento, tem em seu mais primordial pré-requisito, o parar de fumar. Bem, aí amigos, o exemplo figurativo vai além…

Durante o processo, a pessoa terá desde a mudança de humor, até crises de abstinência do antigo hábito… que, enquanto a química corporal e cerebral se adapta à nova realidade, o indivíduo (que é a soma das químicas, físicas e outras ciências), padece e sofre…

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…sofre desde conflitos internos, ou, consigo mesmo, até dramas maiores em suas relações mais próximas. Familiares, colegas de trabalho e tals…

Também é interessante dizer que, este subprocesso também serve para determinar quem realmente se importa com o cidadão e quer seu bem, de quem é apenas reativo ao momento que ele vive… resumindo: amizades vêm e irão de acordo com o avançar do processo…

Outras, permanecem… como no meu caso, por décadas, ou, quase a minha vida toda de convívio social, como meus amigos-irmãos do jantar de ontem. Mas, isso foi pura sorte minha, que, ao longo do período, conseguiram suportar minhas insanidades… tal qual suportei as deles…

O momento atual, me diz que, nesse instante, minha insanidade me aponta a necessidade de revisitar processos da minha vida… escolhas feitas… um balanço do que fiz até então… e isso não é a solução em si de nada, mas, simplesmente, o início de um diagnóstico… o tratamento é outra coisa.

Pois eu diria que o diagnóstico para possíveis causas dessa insanidade é vasto… o mundo em que eu vivo, a sociedade, o cenário político, o plano astral, o universo, enfim… em qualquer abordagem que eu venha a fazer, encontrarei dissonâncias minhas em relação a tais fatores…

Mas, e daí?

O que eu devo concluir com isso?

Sinceramente, não sei… só sei que o processo segue e está a todo vapor… talvez demorando mais do que eu previa, ou, pelo simples fato de eu ainda não ter entendido que ele irá durar o tempo em que eu viver… afinal, a melhoria deve ser constante…

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Também acho que, como tenho pensado muito ultimamente, ele é algo que, por mais que eu viva socialmente, diz respeito unica e exclusivamente a mim. Afinal, não se trata de que eu mude (ou deixe de ser “louco”) para não desagradar aos outros… mas sim, de que eu apenas atinja a razão para que isso tudo faça sentido A MIM. É a mim que eu devo satisfações. Sou eu quem me cobra a todo instante, o porquê disso tudo… o que eu tenho ganho com isso? Se o feito até então valeu a pena… e, sobretudo, para que eu tenho procedido? Para qual rumo eu estou indo? Terá algum nexo nisso tudo?

Será que o nexo disso tem algo a ver com o Nexus, a explosão de uma suposta Supernova do centro da galáxia e que nos irradia com raios gama, desde 2008, segundo vertentes esotéricas ou pseudo-científicas que corroboram com todas as teorias da mudança global, nova era, 2012, apocalipses e fins de mundo que, a todo instante nos assaltam a mente?

Sabe-se lá…

Também as vertentes religiosas nos falam de mudanças em planos espirituais, de reformas de moralidade necessárias para “passar de fase” (sim, parece um RPG astral onde temos que realizar quests para ganhar pontos, evoluir o personagem e avançar de fase).

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Completei 40 este ano… espero que tenha uma coisa ou outra ainda reservada…

Experienciei muita coisa de 2010 para cá, embora, tenha tido prévias do porvir bem antes disso… e, durante os vários discursos ouvidos, tanto de espíritos, de mentores, de médicos, familiares, amigos e uma gama de gente que tentava me ajudar a voltar à “normalidade”, notei algumas ligações e “coincidências” que me apontavam que haveria uma necessidade de mudança… ouvi desde que “…tempos difíceis se avizinham”, até que “…tempos novos e alegres estão surgindo”…

E, nessa diferença gritante de “dicas”, que mais parecem fornecidas por institutos de pesquisa brasileiros e suas margens de erro ridículas (como a que transforma 1 milhão de pessoas em 20 ou 30 mil, para, em outras situações, transforme meia dúzia de gatos pingados em “milhares de pessoas”), percebi que também são causas de insanidade… afinal, como tentar pensar racionalmente com tantos dados difusos?

Mais adiante, me dei conta de que nem sempre pensar racionalmente é solução para tudo… sentir era tão essencial quanto pensar…

Mas, sensações e sentimentos, variam muito de momento para momento… o que “racionalmente” podem ser encaradas como problemas de ordem mental e que carecem de medicamento…

Eu diria que não… que essas mudanças são tão frequentes quanto novos paradigmas se apresentam aos que estão abertos a vê-los…

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Mentes fechadas em suas “certezas” dificilmente percebem coisas que fujam de suas cognições… já, aos loucos que percebem tudo de forma diferente…

Raul Seixas, o nosso maluco beleza, nos brindou com inúmeros pensamentos que, hoje, notadamente estavam à frente de seu tempo… o que, me parece mais que a sua insanidade residia muito na incapacidade dos “sãos” em perceber sua genialidade, do que, necessariamente, na “maluquez” dele… ilustrada, magistralmente, ao meu ver com a frase “…quem não tem visão, bate a cara contra o muro…”.

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Pois bem, queridos, se temos ao nosso redor pessoas caçando borboletas, OVNI’s nos céus ou a iluminação interior, se encharcando de Santo Daime, eu diria que são sinais de que algo grita dentro de cada um… são sintomas de que o “real” não basta, sintomas de que suas realidades são insuficientes para justificar o porquê disso tudo… e, por mais que ainda não tenhamos a menor ideia de qual seja essa solução, abrir cada vez mais os olhos, seja fundamental para que, caso nos cruze a frente, consigamos enxergar tal solução… ou, atingir meios de criá-la nós mesmos… sem ficar refém de nenhum baluarte ou arauto da “normalidade”… e, Deus nos livre, dos ditadores do novo “politicamente correto”…

Pensemos nisso… ou, simplesmente, pensemos…

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**Peço licença poética para as trossentas reticências usadas, pois elas justamente representam a não finitude do pensamento em cada frase em que as empreguei… (inclusive aqui)