O profeta, as ostras e as pérolas

Certa feita, um homem desesperado caminhava sem rumo pela orla marítima em um mundo muito distante. Pensava em seus problemas e como resolvê-los. Os tempos eram difíceis e sua vida se atrapalhava em virtude de dinheiro.

Assim, enquanto lamentava, cabisbaixo, perto de algumas pedras, encontrou uma comunidade de ostras que viviam pacificamente.

Observou por instantes e viu que, apesar de primitivas, vivam suas vidas de forma relativamente tranquila. Naquele ambiente rochoso, com a água do mar a todo instante batendo, podiam extrair tudo o que necessitavam.

Notou também, uma certa comoção em torno de uma ostra, que convalescia.

Imaginando do que se tratava, o homem aproximou-se e apresentou-se como um profeta. Contou às ostras que aquela que convalescia havia sido agraciada com uma dádiva divina. A de produzir tesouros internos.

Sendo assim, o homem diz que o sacrifício da ostra não seria em vão e que ela seria recebida com todas as glórias em um lugar maravilhoso onde todas as ostras viveriam felizes para todo o sempre.

Apesar da tristeza com que as demais ostras receberam a notícia, foram novamente reconfortadas pelo homem que seguia afirmando que aquele sofrimento todo era uma dádiva e que ele, como intermediador divino, iria por fim a todo o sofrimento dela, garantindo sua passagem ao outro mundo. O mundo de sonhos e de realizações.

Após instantes, as outras ostras, já conformadas, aceitaram o destino daquela. E a própria já se sentia reconfortada por ter seu sofrimento terminado e as promessas de bem-aventurança futura.

Assim, o homem abre a ostra e mostra a todos o maravilhoso tesouro que o sofrimento dela havia produzido. Com discursos inflamados sobre a beleza, a perfeição, o brilho e a bênção que era ter a honra de produzir a pérola, faz com que as demais passassem, inclusive, a invejar o destino daquela que havia partido.

Dias se passam, e o homem retorna para o local, sempre procurando pelos outros “escolhidos”. Aqueles que haviam sido agraciados com a escolha divina. Encontrava, eventualmente, uma ou outra ostra nessa situação, sempre repetindo o ritual de exaltação do maravilhoso destino dessas ostras.

As que não conseguiam a “graça”, sempre indagavam o homem para que lhes ensinasse o caminho mais rápido para atingir suas metas.

O homem conta uma história sobre o toque divino, que perfuraria suas conchas e atingiria seus interiores, forçando assim, com que elas imediatamente iniciassem o processo de produção do tesouro através de seus sofrimentos. Contou-lhes que o sofrimento engrandeceria a tarefa, pois as mais belas pérolas viriam dos maiores sofrimentos. E, que cada uma, igualmente, estaria mais evoluída que as outras à medida que produzissem mais de uma pérola ou, de tamanhos maiores.

As ostras entravam em estados frenéticos de êxtase, buscando a todo instante o tal fator externo que lhes proporcionaria o tão sonhado destino final. E, assim, buscavam refazer os passos das demais ostras que ascenderam em seus sofrimentos. Peregrinar por locais por onde passaram, copiar hábitos…

O homem, com o passar dos tempos, notou que muitas delas conseguiram produzir as esperadas pérolas. Mas, com isso, a população começou a diminuir. Assim, contou-lhes o quão importante seria que multiplicassem-se entre si antes de atingir o estado de graça. Que, seus caminhos deveriam seguir uma cartilha, que visava torna-las mais dignas da graça maior.

Assim, as ostras reproduziam-se até certa idade, o máximo possível, até que pudessem buscar de forma natural, a produção das pérolas.

Nem todas produziam pérolas perfeitas, sendo assim, o homem dizia a elas que suas entregas à causa não haviam sido suficientes. Também, demonstrando às demais que o tesouro poderia não ser tão valioso assim, se cada uma delas não se esforçasse para seguir as regras que ele havia passado.

Exaltando as melhores produtoras e corrigindo as que não conseguiam o padrão maior de qualidade, o homem manteve as atenções das ostras totalmente sob controle. Com vários cerimoniais e discursos inflamados sobre a conduta de cada uma delas.

As ostras que eram levadas, nunca mais eram vistas pelas que ficavam, dando embasamento à teoria de que haviam transcendido o local e o ambiente em que viviam.

Certo dia, uma das ostras, indignada com o sistema que vivia a comunidade, resolve investigar melhor o homem e seus ditos e histórias.

Pensa que o sofrimento poderia gerar tesouros, mas, ainda assim, era um processo que não gerava bem estar algum às ostras e seus modos de vida. E, principalmente, pensou sobre o tal tesouro. A quem ele era realmente um tesouro? Não a elas, que, apenas queriam verem-se livres de tal sofrimento o quanto antes.

Fez de tudo para que não tivesse como gerar uma pérola. Fugiu de todas as regras e indicações do homem e de suas próprias irmãs, que entusiasmadas com a causa, faziam de tudo para que o ciclo da “virtude” se mantivesse.

Pregavam a ela que eram úteis em seus sofrimentos para uma causa maior. Uma causa além de seus entendimentos e compreensões. Que, apenas a fé de saber que alguém se beneficiaria disso, além da promessa futura, eram motivos de orgulho suficientes para seguirem.

A ostra inconformada, tenta dissuadir as outras, dizendo-lhes que o modo de vida anterior era calmo e tranquilo. E, que elas eram felizes sem a necessidade de nada daquilo.

As outras acusam-na de ser agitadora e de heresia, fazendo com que se isolasse da comunidade.

E, durante o tempo em que se manteve afastada, a ostra dissidente começa a sentir os efeitos de uma pérola.

Ela revolta-se contra tudo aquilo, que, mesmo fazendo parte de suas naturezas, não era nada agradável. E tampouco útil a ela mesmo, que não via sentido algum naquilo tudo.

Ela resiste à dor e mantém-se no exílio. E, mesmo com as visitas do homem, ela nega-se a dizer que está sofrendo e que tem uma pérola em si.

O tempo se passa e ela percebe que novas inserções do agente externo estão se formando nela. E, mesmo com seu interior lutando contra aquilo tudo, com todas as forças que tinha, nega-se a deixar transparecer nada daquilo.

O homem, um dia, vê que a ostra havia se alterado e que marcas em sua concha eram visíveis, caracterizando assim, a produção de pérolas.

Ele resolve levá-la à cerimônia com as demais, exaltando seu exílio como sendo uma purificação extrema e que ela havia, através daquela situação extrema, tornado-se a maior de todas as ostras que já haviam habitado aquela comunidade.

Nesse momento, a ostra toma a palavra para si e diz que o exílio, de fato, havia lhe ensinado muito. Havia, sobretudo lhe ensinado que era possível viver com o sofrimento. Aprendeu que era possível seguir a vida, mesmo com as agruras do processo, e que, mais à frente, cessavam as dores. Também disse ter aprendido que muitas outras pérolas poderiam ser produzidas sem a necessidade que nenhuma delas fosse levada à lugar algum. E, sobretudo, diz ter aprendido que as pérolas são realmente tesouros. Mas, por mais que pudessem ser tesouros por suas belezas e formatos, para ela, o valor havia se tornado inestimável. Ela havia aprendido que todas as pérolas se formavam não para exaltar seus sofrimentos, mas sim, para protegê-las de um parasita que as atacava. E, cada pérola que agora continha nela, era a lembrança de uma vitória sobre os agressores. Uma lembrança de sua resistência, de sua bravura e sua inconformidade em desistir.

Olhou para o homem e agradeceu por tudo, mas, que naquele momento, não precisaria de homenagem alguma. E, sequer queria ser conduzida ao paraíso. Pediu que como prêmio, pudesse viver sua vida até os últimos dias, e, ao final, quando a hora derradeira chegasse, suas pérolas fossem lembretes às demais, de que é possível triunfar sobre qualquer sofrimento. E que a recompensa era a sapiência que cada pérola lhe proporcionou. Seu verdadeiro valor estava, paradoxalmente, não na quantidade de pérolas geradas, que ela sabia serem dezenas, e nem na beleza estética de cada uma delas, mas sim, na forma com que cada uma delas foi gerada.

Assim, o homem viu seu discurso perdendo força, até que, dando-se conta de que ali não mais teria influência, foi em busca de uma nova comunidade para “orientar”…

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Post Scriptum: Arrisquei-me nessa tentativa de conto para pensar junto à vocês, a qual sistema nosso sofrimento interessa? Em qual contexto? A quem ele é belo? Ele existe por existir ou há motivos para tal?

Não que precisemos nos exilar para aprender o real motivo pelo qual essas coisas acontecem, mas, certamente é primordial refletir a respeito. Se ele é algo que, de fato, nos eleva em um contexto maior de evolução, ou, se simplesmente ele é produto de uma causa que quer produzir ostras em hospedeiros dispostos à morrer pela causa?

Para as que aprenderam algo com o processo, o parasita pode ser considerado realmente um “toque divino”. Já, para as que simplesmente se atiraram no processo, crendo que sofrer é bom, terão seus anseios atingidos. Sofrerão e serão úteis a uma causa que sequer compreendem direito.

Pensemos nisso… ou, simplesmente, pensemos…

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