Poupar, popular, papoulas e populismo

Bem, eu não me chapei com papoulas e derivados, para começo de conversa… mas, ela certamente entra no contexto do título à medida que se misturarmos tudo que há nele, a sensação possa mesmo de ter ingerido doses cavalares do elemento-base da fabricação da morfina… ou seja, entorpecimento total…

E o que uma coisa tem a ver com a outra?

Bem, para começar, o de sempre. O nosso querido amansa-burro:

 

pou.par
Verbo transitivo direto.
1.
Gastar com moderação; economizar.
2.
Ser tolerante com.
3.
Não fazer mal a.
Verbo transitivo direto e indireto.
4.
Pôr a salvo.
5.
Fazer que não despenda; evitar.

Verbo intransitivo.

6.
Viver com economia.

Verbo pronominal.

7.
Esquivar-se, eximir-se. [C.: 1]

§ pou.pa.dor (ô) adj. sm.

Pelo que grifei, deu para notar por onde começar, não?! Embora, no termo, em si mesmo, exista um paradoxo: “ser tolerante com” e “evitar”. Talvez a resposta ao próprio paradoxo esteja em “eximir-se”. Mas, não para mim… não mais.

 

po.pu.lar
Adjetivo de dois gêneros.
1.
Do, ou próprio do povo, ou feito por ele.
2.
Simpático ao povo.
3.
Vulgar, trivial.
4.
Feito, distribuído ou adaptado para ser acessível ao uso ou consumo por grande número de indivíduos, esp. aos com menor poder aquisitivo: casas populares, carro popular.

Substantivo masculino.

5.
Indivíduo qualquer: Foi socorrido por populares.

§ po.pu.la.ri.da.de sf.

Notemos aqui uma série de elementos a sem pensar. Feito pelo povo, ou simpático à ele, pode ser algo FEITO ou ADAPTADO para ser acessível ao mesmo. Resumindo: algo popular, pode, além de ser vulgar, ser também algo FORJADO para cair nas graças do povo, para o caso de não ter sido feito pelo próprio… para cair na popularidade, por exemplo…

O conceito de “popularidade” difere muito de cultura para cultura. Quem aqui não viu algum filme americano onde meninas com transtornos psicológicos fazem “diumtudo” para serem populares? E, quase sempre, a tal busca pela popularidade justifica o monte de merda cagadas besteiras que fazem para alcançar suas metas. Só no Disney Channel passa um por semana…

Aceitamos pessoas sem chapinha pelo sistema de cotas...

Aceitamos pessoas sem chapinha pelo sistema de cotas…

Já, aqui na Terra Brasilis, nosso conceito de popular é bem diferente… a começar pela própria cultura. Vide o programa “Esquenta”, que reúne tudo o que eu não aturo em um único programa. Música ruim, vulgaridade (que é do conceito de popular no amansa) e coisas que não me acrescentam em nada na vida.

Aceitamos pessoas sem bunda pelo sistema de cotas...

Aceitamos pessoas sem bunda pelo sistema de cotas…

Tá, e daí, vocês devem estar pensando?

Bem, e daí que outra diferença entre o popular de lá e o daqui também ressalta aos olhos. Lá, nos filmes, geralmente quem “combate” os tais populares (que na visão dos cineastas são geralmente gente chata, fútil e, muitas vezes cruel com os não-populares) são os mocinhos… já, por aqui, quem resolve combater os tais “populares”, é um preconceituoso, elitista e blablabla-qualquer-outro-termo-inventado-para-dizer-que-são-más-pessoas.

E daí, vocês seguem se perguntando?!

E daí que há um contexto por detrás disso tudo para se analisar. Enquanto nos tais filmes (que eu acho um saco, mas a minha filha adora) a reflexão é a de que não deve-se tentar de tudo para agradar as pessoas, mas sim buscar o que você é em essência, livrando-se das amarras da aprovação de todos (mas, que no final do filme acaba-se conseguindo a aprovação geral, justamente quando mandam-nos todos às favas); aqui, a reflexão dos populares é que são intocáveis. São pessoas que, tendo a aprovação geral, ou, da maioria, tornam-se representantes, ou avatares, do povo.

Ah, mas nos filmes os populares são riquinhos, mauricinhos e patricinhas que espezinham os que não são como eles…

Perdeu, patricinha! Agora vou mandar todo mundo pros quintos, sem sistema de cotas... o negócio aqui vai ser autoritário...

Perdeu, patricinha! Agora vou mandar todo mundo pros quintos, sem sistema de cotas… o negócio aqui vai ser autoritário…

Sim, são. Mas, da mesma forma, ao final, os não populares derrubam os populares, e, tomando seus lugares, passam a representar a classe. Virando populares automaticamente, ou seja “do próprio povo, ou feito por ele”.

A diferença básica está no blefe dos filmes em tentar mostrar que criaturas com desordens mentais, são elitistas e, às custas da admiração alheia (dos que gostariam de ser como elas), exercem algum poder de manipulação. Mas, peraí, aqui também…

À medida que glamourizamos o popular, desperta-se um certo poder de encantamento sobre os demais. Formam-se ídolos. E ídolos, sabemos todos, estão protegidos por suas legiões de fãs.

Podemos então dizer que, o poder “popular” está mais na projeção de seus ídolos do que no avanço dos que os tais ídolos representam. Tanto nos filmes, como aqui; a antítese americana.

Enquanto por lá, a imagem, a aparência e quesitos com pouca essência são os argumentos de se tornar popular, por aqui, pode ser algo inverso. Vide o movimento funk, que glamouriza a falta de cultura, o sexismo ao invés da sexualidade, a ostentação, etc, etc, etc; mas, como nasceu do próprio povo, não pode ser atingido…

NÃO PODE SER ATINGIDO??? COMO ASSIM???

Tomaram, papudos?!

Tomaram, papudos?!

Não pode, pelo simples fato de que os populares de lá, são a elite. E os daqui, são justamente os que, supostamente, são apartados da elite. E, na cultura brasileira, alguém preterido pelas elites, é uma vítima em si mesma, e, qualquer tipo de opinião contrária, te torna automaticamente um opositor do povo, ou seja, da elite.

Obviamente este mundo dualista e maniqueísta que vivemos hoje em dia é míope (e chato pra caralho caramba). Qualquer pessoa que mora no morro, tem o direito de odiar funk. De achar ridículas as modas de vestuário das Piriguetes (alguém ainda usa esse termo?) ou mesmo preferi ouvir Mozart… – ELITES!!! – dirão… mas, creio que o conceito não se aplique justamente por serem pessoas comuns, sem visibilidade, ou seja, não “populares”, embora, vindas do povo…

Vixi...

Vixi…

Ok, pra não ficar mais chato ainda, acho que deu para notar a diferença entre o popular que é o aclamado, o notado, o ídolo (simpático ao povo), para o popular que é a pessoa do povo, e, a antítese do ídolo… o impopular…

Pois bem, encontramos outro paradoxo no mesmo termo…

Todos ouvimos recentemente durante o jogo político-eleitoral (ou eleitoreiro), que alguns candidatos buscam medias “impopulares”, ou seja, coisas que não vão ao encontro da vontade do povo. Bem, ao meu ver, isso pode ser algo que não é necessariamente ruim… o povo em si, pode conter pessoas com vontades, digamos, estúpidas. Por exemplo, como a do cara que inventou a moda de deixar as cuecas aparecendo para fora das calças como sendo algo legal. E o fato de alguns usarem, não necessariamente seria da minha concordância se inventassem uma lei onde todos devessem usar isso… Tão rindo?! Pois lembrem-se que o “presidente” da Coreia do Norte já baixou um decreto onde todos os homens deveriam ter o mesmo corte de cabelo que ele…

Todos também já ouvimos que “A voz do povo é a voz de Deus”. Fazendo um silogismo básico (e besta), podemos então dizer que:

  • Se a voz do povo é a voz de Deus, então, o povo quando escolheu Barrabás, ao invés de Jesus, representava Deus em sua escolha; portanto, quem crucificou Jesus foi Deus, e não as pessoas que ali gritaram o nome de Barrabás…
Escolham direito... o segundo turno aqui, chama-se APOCALIPSE!

Escolham direito… o segundo turno aqui, chama-se APOCALIPSE!

Pensamentos idiotas à parte, podemos seguir dizendo que nem todas as escolhas populares são as melhores… inclusive para si mesmos… então, medidas impopulares, não necessariamente são ruins…

Fazer uso apenas da “vontade popular”, pode-se gerar algo muito maior. Um problema maior. Pois como aquele pai que não sabe educar o filho e acaba lhe dando tudo o que pede aos berros, ao final, torna-o um adulto imbecil chato pra cacete problemático… o que me lembra as tais patricinhas “populares” dos filmes que citei…

Pois confundimos o popular com o populista… ou o populismo:

“O termo populismo é utilizado para designar um conjunto de práticas políticas que consiste no estabelecimento de uma relação direta entre as massas e o líder carismático (como um caudilho, por exemplo)para se obter apoio popular, sem a intermediação de partidos políticos ou entidades de classe.”

Ah, pois então...

Ah, pois então…

Notem que, NÃO POR ACASO, o tal líder carismático (ou ídolo popular) acaba se relacionando de forma a estar acima das intermediações políticas ou de classe… pois, notemos que o “popular” estar acima do coletivo (por mais que confunda-se o popular com o coletivo ou a vontade geral) é muito mais perigoso do que a ação focada na individualidade, na estratégia, ou, na ética, sobretudo.

Sabemos também que o povo divide-se. Dentro dele, há diversas classes. E, cada classe exigindo seu quinhão, alinha-se a líderes. Até aí, nada de errado. O problema é quando o tal líder vira um ídolo, e, muda o status de representante do povo para supremo ao povo… nessa hora, ele deixa de representar a classe que o colocou lá, para se transformar em uma egrégora de um pensamento coletivo que o próprio julga ter incorporado.

O populista, sobretudo, é um lunático que julga ser um “escolhido”, um “abençoado” ou “enviado”… mas, lembrem-se: que no caso de Jesus, que era o enviado de fato, o próprio povo o destituiu. O que ilustra bem que nem sempre o povo sabe identificar quem está ali para ajuda-lo de quem apenas toma sua frente para manipula-lo…

Pensemos nisso… ou, simplesmente, pensemos…

 

Amém...

Deus nos poupe do popular, do populismo… do contrário, só com papoulas… Amém…

 

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