Desculpa…

Pedir desculpas é um ato nobre, que todos deveriam exercitar para melhorar seu convívio social, não é mesmo?

Não se analisarmos a expressão mais profundamente…

des.cul.pa
Substantivo feminino. 
1.Ação ou efeito de desculpar(-se).
2.Perdão; indulgência.
3.Escusa (2).

per.do.ar
Verbo transitivo direto. 
Verbo transitivo direto e indireto.
1.Desculpar (pena, culpa, dívida, etc.).
Verbo intransitivo.
2.Conceder perdão ou desculpa. [C.: 1D]
§ per.do.á.vel adj2g.

Ok, poderia ir adiante, mas, para não cansar muito, vamos direto ao ponto: desculpar = perdoar = retirar a culpa.

Retirar a culpa…

Pois bem, neste prisma, se você fez alguma (cagada)  coisa errada à alguém, seria o correto, simplesmente pedir a ele que retire a culpa de cima de você?

Um sábio dizia que “Há três coisas que não voltam atrás: a flecha lançada, a palavra falada e o tempo perdido”. Da mesma forma que não adianta retirar o que foi dito, retirar a culpa de uma má ação não vai transformá-la em boa ação…

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Calma lá Georginho… essa desculpa é outra coisa… ou não?

Bem, além de pedirmos desculpas, somos peritos em inventar desculpas…

Uma certa feita, ouvi de um amigo muito sábio, que, quem nos pede desculpas, na verdade, está pedindo permissão para falhar novamente conosco. E, é claro, eu tinha acabado de pedir isso à ele…

Por outro lado, inventar desculpas, embora seja uma ação supostamente diferente do que pedir desculpa, nos remete ao mesmo ponto crucial: a tentativa de nos livrar da culpa.

Pedir desculpas é aceitar que a culpa e nossa, mas, pedimos à alguém que  retire… geralmente, ao credor em questão…

Não querida, não estou te traindo... apenas estou atestando que não existe mulher melhor do que você...

Não querida, não estou te traindo… apenas estou atestando que não existe mulher melhor do que você…

Já, quando inventamos ou prestamos alguma desculpa, na verdade, estamos tentando justificar que a culpa não é diretamente nossa… e, invariavelmente, acabamos atribuindo à algo ou alguém, tirando o nosso da reta…

Salvando o planeta então, né não?!

Salvando o planeta então, né não?!

Certa vez escrevi sobre culpa e não vou retornar ao assunto, mas, à época já acreditava que a culpa é apenas um aviso interno que diz que devemos arrumar alguma coisa, ou, melhorá-la. Livrarmo-nos da tal culpa, seria, então, uma forma de abrirmos mão de ter que buscar um reforma íntima ou mesmo repensar nossas atitudes?

Talvez…

Mas, também vejo isso como parte de nossa “civilização”, que através do maniqueísmo, induz as pessoas a agirem de formas pré-ordenadas para que possam enquadrarem-se em padrões pré-estabelecidos para o que julgam ser aceitável ou não.

desculpa

Pedir a alguém ou mesmo inventar mecanismos que simplesmente “deletem” a tal culpa e, com ela, nossas mentes nos dizendo que fizemos coisas que não deveríamos é muito mais complicado do que simplesmente pedir a anuência…

Umas das coisas que me desviaram do catolicismo foi, depois de ter adquirido a capacidade de questionar sem me ater a dogmas, foi a incompreensão de que, independentemente do que possamos fazer de mal, basta confessar, cumprir “penitência”, que geralmente era rezar centenas de orações decoradas – e que eu repetia feito papagaio e com a mente só imaginando quando sairia dali – para, ao final, estar livre para cometer os mesmos erros de novo, ad eternum, sempre contando com a compreensão de um Deus que é todo amor, que perdoa, mas, que mesmo me perdoando eu poderia arder no inferno pelo resto da eternidade…

Por outro lado, a tal lei do Karma, que me parecia sempre uma espécie de contabilidade astral, onde uma pontuação é estabelecida para cada ato nosso, e, ao final, temos que ter mais pontos positivos do que negativos… Dharma e Karma, se não me engano. Pois, neste caso, acabei apelidando de “contabilidade astral” justamente porque a minha meta era: se eu terminar zerado já estou no lucro…

Nesta mesma contabilidade, notei que havia duas moedas correntes, o amor e a dor. Ambas serviam para pagar as “dívidas” contraídas… mas, também descobri que a fatura é bem maior, afinal, sendo espíritos reencarnantes, algumas religiões me diziam que eu já nascia devendo da outra vida passada…

Pois eu devo ter chegado lá no além e dito: “Querido São Pedro, dá pra parcelar no VisaHeaven em 10 encarnações sem juros? Abro mão das milhagens, pois não pretendo viajar ao inferno mesmo…”

Como assim? Explicar que cada desgraça que ocorre tem explicação de uma dívida cuja a qual eu não tenho o extrato só pode ser uma santa sacanagem…

desculpa-sempre

O nome disso é crédito rotativo

Pela lógica acima, devemos desculpar os outros para, ao final, sermos desculpados… enfim, um sistema onde a minha culpa elimina a sua e assim segue a vida… método matemático onde valores iguais com sinais opostos anulam-se…

Salvei um cãozinho… +4 pontos… mas, infelizmente, gosto muito de jogo do bicho… – 5… estou devendo 1… bem… acho que vou ter que ajudar alguma velhinha a atravessar a rua para  equilibrar…

É claro, toda essa bobajada acima serve para escrachar minhas incompatibilidades dogmáticas. Mas, perguntando-me o que eu acho que seria o ideal para isso tudo, simplesmente diria:

A meritocracia está em agir sem esperar o retorno. No momento em que realiza-se algo bom, mas, com a intenção de se beneficiar com isso, perde-se muito do valor…

Bem, mas ainda assim está se realizando coisas boas, certo?

Sim, certo… mas porque isso é o que queremos, é o que nos faz bem… e não para alimentar um sistema que nos avalia e nos cobra o tempo todo… para isso já temos o governo…

Quando nos dermos conta que, fazendo bem a algum necessitado, estaremos nos fazendo bem da mesma forma, porque isso gera uma aura de energia positiva, e não simplesmente porque alguém ou algum livro mandou, aí sim estará perto do que EU ACHO (puro achismo meu) como ideal…

frase-destino-aquilo-que-autoriza-os-crimes-do-tirano-e-serve-de-desculpa-para-os-fracassos-do-idiota-ambrose-bierce-144037

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